Obama chega atrasado à história

Marcos Guterman

20 de maio de 2011 | 00h08

Muita importância se deu ao pronunciamento do presidente dos EUA, Barack Obama, em relação ao mundo árabe e à questão israelo-palestina. Dizer que foi um discurso “histórico”, porém, é obviamente apenas um desejo; quando muito, o evento serviu para mostrar que os EUA ainda têm a pretensão de reassumir algum papel relevante num Oriente Médio em convulsão.

Com relação a um futuro Estado palestino, que Obama quer ver nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias (1967), Israel confia no compromisso do governo americano, sob Bush, de apoiar o país em sua visão segundo a qual é tecnicamente impossível voltar a essas fronteiras, desconsiderando os assentamentos judaicos na Cisjordânia. Mas Obama não descartou totalmente a possibilidade de que Israel mantenha parte de suas colônias, ao sugerir que haja troca de terras entre os litigantes. Há, portanto, espaço para algum compromisso.

No entanto, Obama comete um erro ao propor um mapa antes que as negociações comecem, porque, afinal, são justamente as fronteiras que deverão ser negociadas. Ao enfatizar seu apoio a uma situação congelada de quatro décadas atrás, Obama atribui a apenas um dos lados, Israel, a responsabilidade não somente pelo atual status quo, mas pelo eventual fracasso da nova tentativa de conciliação. Por outro lado, ele fez questão de dizer que espera dos palestinos uma “resposta crível” às preocupações israelenses sobre como negociar com um interlocutor que não reconhece o direito de Israel de existir.

Do lado palestino, certamente deve ter causado desconforto o fato de que Obama deixou de defender com clareza o direito de retorno dos refugiados, ao fazer menção a “dois Estados para dois povos”. Também não quis se estender sobre o status de Jerusalém.

Assim, fica claro que o pronunciamento de Obama a respeito do Estado palestino é histórico mais por suas intenções do que propriamente pela proposta em si. “Depois de décadas aceitando o mundo como ele é, temos a chance de fazer o mundo como ele deveria ser”, disse ele, numa conclusão perigosamente ingênua. É pouco para o presidente da maior potência do mundo.

A respeito da “Primavera Árabe”, Obama disse que está na hora de os americanos ouvirem “as aspirações de pessoas comuns” nessa região, pois, do contrário, os EUA só vão “alimentar a suspeita de que buscam seu próprio interesse à custa delas”. Mas os americanos talvez estejam mesmo chegando tarde. Nenhuma das grandes mudanças no mundo árabe foi patrocinada ou influenciada pelos EUA. Pior: os americanos demoraram a reagir porque seus aliados na região são justamente os regimes tirânicos que as “pessoas comuns” querem derrubar. Obama limitou-se a pedir que o Bahrein parasse de reprimir dissidentes, sem ameaçar impor nenhuma sanção. Sobre a Arábia Saudita, sólido cliente militar dos EUA que ajuda a reprimir os bareinitas, Obama não reservou nenhuma palavra.

Sobre esse aspecto, o presidente americano disse que “haverá vezes em que nossos interesses imediatos não se alinharão perfeitamente com nossa visão de longo prazo na região”. O que parece óbvio em política externa soa como uma afronta justamente no momento em que os EUA assumem publicamente o compromisso de defender a democracia no mundo árabe e, numa retomada do ideário do presidente Wilson, estimular a “autodeterminação dos povos”. Não surpreende que as “pessoas comuns” de lá tenham se entusiasmado tão pouco com tudo isso.

Tendências: