O velho antissemitismo não cansa de se reinventar

Marcos Guterman

08 Junho 2010 | 17h16

O episódio da “Flotilha da Liberdade” serviu para mostrar que o antissemitismo continua vigoroso. Mais do que isso: tem se provado indiferente à passagem do tempo, reinventando-se de modo formidável diante dos desafios históricos que se lhe impõem.

O que talvez explique a resiliência do antissemitismo é sua estratégia. O ódio aos judeus aposta basicamente na ignorância generalizada e na disposição de aceitar como verdadeiras as proposições que “fazem sentido”, embora não tenham correspondência com a realidade. Só isso explica o fato de que intelectuais altamente preparados, como José Saramago, chancelem a comparação dos territórios palestinos com Auschwitz. Para Saramago, o paralelo “faz sentido”, enquadrando-se em uma visão de mundo na qual o Estado judeu representa a essência do Mal – entendido como a encarnação do capitalismo ocidental e de seus valores desumanos.

Essa visão remonta ao século 19, quando a ascensão do nacionalismo transformou o judeu “deicida” no judeu como dono do capital mundial, com planos para destruir as nações por dentro, de modo a facilitar a dominação. Contra esse Mal reagiram muitos intelectuais europeus, o que explica como foi possível um país que gerou Goethe e Beethoven ter igualmente gerado o nazismo. O judeu alemão Marx confundiu ferozmente o judaísmo com a burguesia de seu tempo, e esse discurso é o que sobrevive na retórica antissemita à esquerda.

No século 21, estamos longe da tese da “raça como motor da história”, que animou tantos pensadores na Europa que caminhou alegremente para o abismo nazista. Contudo, a essência do antissemitismo, tal como concebido por intelectuais de 200 anos atrás, manteve-se. Com exceção de um brevíssimo intervalo de tempo, quando o mundo ocidental se penitenciou pelo Holocausto, os judeus seguiram sendo vinculados a dinheiro, poder e influência em escala global. E isso não acontece somente na chamada “rua árabe”, onde excrescências como os Protocolos dos Sábios de Sião, farsa literária que “revela” um complô judaico para dominar o mundo, são lidos como obra autêntica. Isso acontece também em ambientes altamente sofisticados, como universidades e redações de jornais.

Esse mecanismo mental explica o sucesso de teses segundo as quais o famoso “lobby judaico” domina a política americana e a Casa Branca. Há dezenas de outros lobbies nos EUA, inclusive árabe e islâmico, tão ou mais ricos e influentes que o judaico; no entanto, para efeito de propaganda, é a pressão dos judeus que se destaca das demais e é objeto de intenso escrutínio internacional, como se aí residisse a explicação para as atitudes belicistas e intransigentes dos EUA no que diz respeito ao Oriente Médio.

A predisposição antijudaica explica também como pessoas bem preparadas aceitam como verdadeiras as imposturas anti-israelenses, cujo método consiste em sequestrar todos os símbolos da tragédia judaica e invertê-los a favor dos inimigos de Israel, justamente o Estado judeu.

Desse modo, o termo “antissemitismo”, criado no século 19 para designar especificamente o ódio aos judeus, foi sequestrado pelos inimigos de Israel para caracterizar a hostilidade israelense contra os árabes “semitas”, o que transformaria os judeus israelenses, vejam só, em “antissemitas”; o termo “Holocausto”, que passou à história como o extermínio de milhões de judeus pelos nazistas e seus associados, foi sequestrado pelos inimigos de Israel para designar o suposto “genocídio” palestino, mesmo que os dados demográficos indiquem que a população palestina está crescendo, e não diminuindo; as expressões “Gueto de Varsóvia” e “campo de concentração”, que designam o confinamento de civis judeus para seu extermínio, foram sequestradas pelos inimigos de Israel para dramatizar a descrição do ambiente em Gaza.

Em paralelo, os antissemitas exploram o clima contrário a Israel distorcendo outros termos para disfarçar seus objetivos inconfessáveis. O mais óbvio é “ajuda humanitária”, expressão que tem revestido atentados propagandísticos para desmoralizar o Estado judeu. O caso da “Flotilha da Liberdade” foi o mais bem-sucedido, mas não foi o único – até o Irã agora quer enviar “ajuda humanitária” para Gaza. Em lugar de protestar contra o uso malicioso da expressão “ajuda humanitária”, porém, os “humanistas” preferem criticar Israel, que, como qualquer outro país, está empenhado em defender sua soberania.

Os esforços dos judeus para demonstrar que a questão tem dois lados são irrelevantes diante da percepção de que Israel é a reencarnação da Alemanha nazista e de que os judeus são o que sempre foram. Parece impossível caracterizar Israel como um país qualquer, com erros e acertos. Esse é o ponto: questões como “defesa de soberania” e “segurança”, que fazem parte da agenda de todos os Estados nacionais, remetem ao real; o que acontece no Oriente Médio, contudo, é a transformação do real em ficção ideológica, por meio da qual o ódio ancestral se manifesta e, sorrateiramente, conquista mesmo aqueles que se supõem racionais.

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