O uso ideológico do véu islâmico

Marcos Guterman

20 Maio 2010 | 23h13

Mideast Iran US Hikers

Foto Vahid Salemi/Associated Press

O raciocínio parece simples: em Roma, faça como os romanos.

Assim, as mulheres ocidentais não podem se queixar de que, no Irã, são obrigadas a cobrir a cabeça com véu – como dá para ver na foto acima, que mostra as americanas que foram visitar seus filhos presos no Irã sob acusação de espionagem. Elas não podem se queixar porque, afinal, trata-se da lei local.

Do mesmo modo, os muçulmanos fundamentalistas não deveriam se queixar da eventual proibição do véu islâmico em países europeus. Afinal, também é a lei local, fruto de grande debate público, e não de um édito real ou religioso. E ninguém é obrigado a viver num país cujas leis lhes pareçam ofensivas. No entanto, o raciocínio não é tão simples, principalmente na batalha ideológica que se aprofundou depois do 11 de Setembro, com ecos da conturbada relação Oriente-Ocidente por conta do imperialismo europeu do século 19.

Os militantes anti-Ocidente usam a questão do véu islâmico para produzir provas do suposto desrespeito judaico-cristão liberal ao patrimônio moral do islamismo, num processo de sistemática demonização. A estratégia contida na exigência da preservação das peculiaridades da minoria islâmica, ainda que contrárias aos valores ocidentais seculares, é erigir um muro de separação, porque o islã fundamentalista, desde sempre, não permite que valores externos contaminem a “ummah”, isto é, sua nação.

O liberalismo, cujo espírito reside na possibilidade de resolução de problemas por meio do compromisso, é visto como um inimigo a ser isolado e destruído porque, na visão anti-Ocidental, efemina o mundo ideal. Essa visão não nasceu no universo islâmico, mas no próprio Ocidente, na Alemanha pré-Hitler, impregnada do romantismo que gerou tanto a utopia do retorno à Antiguidade quanto o horror ao racionalismo. A democracia e a liberdade de pensamento, nesse contexto, são consideradas sintomas de fraqueza. É um poderoso discurso contra a intelectualidade, que, não obstante, atraiu e atrai a intelectualidade de esquerda ocidental, interessada em toda forma de oposição ao modelo de vida desse mesmo Ocidente.

Os subprodutos desse caldo são a cegueira ideológica e o antissemitismo, disfarçado de antissionismo – e Israel, como a vanguarda do Ocidente encravada no mundo muçulmano, é vista como o perfeito “invasor”, a bactéria da tibieza moral a contaminar o virtuoso organismo islâmico.

Com apoio estridente dessa turma, líderes muçulmanos radicais cobram respeito absoluto dos europeus a seus valores mais caros, mas não têm o mesmo apreço pelos valores dos europeus quando vivem entre eles – antes pelo contrário: exploram a democracia para defender o “direito” de manter intacta sua “cultura”, palavrinha mágica que embala a repressão a mulheres e homossexuais e alimenta justificativas heroicas para o terror.

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