O último sermão de Fidel

Marcos Guterman

21 de junho de 2010 | 23h14

Em sua doce aposentadoria de tirano, Fidel Castro segue perpetrando “reflexões” sobre os acontecimentos. Mesmo que sejam rematadas asneiras, serão lidas com profunda reverência pelos saudosistas do Muro de Berlim e repetidas como doutrina religiosa fundamentalista. No último sermão, Fidel “refletiu” sobre as más intenções dos EUA contra a Coreia do Norte e o Irã, usando como eixo a Copa do Mundo. É imperdível, como peça de humor involuntário e como documento do nível de cretinice a que chega o contorcionismo retórico antiamericano, na boca de seu porta-voz mais caduco.

Há passagens particularmente delirantes. Na primeira, Fidel “reflete” sobre o afundamento da fragata sul-coreana Cheonan, em episódio que matou dezenas de marinheiros. Como se sabe, Seul acusou o governo norte-coreano, e uma investigação internacional concluiu que a acusação tinha fundamento. Para Fidel, contudo, vale mais a lenda urbana segundo a qual o navio foi afundado por uma mina americana. Isso mesmo: Fidel acredita que foram os EUA os responsáveis pelo incidente, com propósitos inconfessáveis. Vai na mesma linha da tese segundo a qual o homem não foi à Lua ou que os americanos (e judeus, claro) estão por trás do 11 de Setembro. Será inútil tentar contrapor o delírio de Fidel a qualquer forma de argumento factual. Nas próprias palavras do ditador de pijama, a versão de que foram os americanos que afundaram o navio sul-coreano é “coerente com o que aconteceu”. E, na cartilha antiamericana, como se sabe, os fatos são irrelevantes; basta a “coerência”.

O mesmo vale para as “intenções” dos EUA em relação ao Irã. Para Fidel, os americanos atuam para que Israel ataque os iranianos, porque Washington tem o “desejo ardente de varrer o governo nacionalista que dirige o Irã”. Pouco importam as gestões da Casa Branca para impedir que Israel faça uma besteira, e pouco importa que o tal “governo nacionalista que dirige o Irã” seja, na verdade, um regime teocrático messiânico que visa a estabelecer um domínio imperialista sobre o Oriente Médio. Para Fidel, e para aqueles que o idolatram, quanto mais primário o discurso, melhor –e isso significa colocar os EUA como pivô dos males do mundo. Todas essas “diabólicas notícias”, segundo Fidel, acontecem “entre um jogo e outro da Copa do Mundo”, de modo a que “ninguém se dê conta delas”. Perversos, esses americanos.

Mas o último delírio de Fidel em sua “reflexão” – e o mais imperdoável deles – é a afirmação segundo a qual Maradona é “o melhor jogador da história do futebol”.

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