O tsunami do Japão e a negação do homem

Marcos Guterman

14 de março de 2011 | 10h18

Há quem diga, como fez Clóvis Rossi na Folha recentemente, que o terremoto e o tsunami no Japão podem ter sido resultado da exploração desenfreada da natureza pelo homem. Rossi admite que se trata de uma “cisma”, uma “sensação de que a coisa está esquisita”, isto é, que há um desequilíbrio na natureza por conta da ação humana. Embora calçada em pesquisas científicas que atestam os efeitos da industrialização e da urbanização do planeta sobre o clima e os fenômenos naturais, pode-se dizer que essa “sensação” seja fruto de uma visão teológica do mundo. Onde se lê “vingança da natureza”, leia-se “vingança de Deus”.

No Gênesis, a vingança é clara. Deus decide mandar um dilúvio para retomar o controle dos destinos do homem, perdido por conta da expansão demográfica que se seguiu ao “crescei e multiplicai-vos” – isto é, quanto mais gente sobre a face da Terra, menor a possibilidade de que essas pessoas sejam feitas “à imagem e semelhança de Deus” e se submetam a ele. É o primeiro alerta a respeito dos efeitos do domínio do homem sobre a natureza e é também o primeiro alerta sobre os riscos da “excessiva” liberdade criativa humana. A visão religiosa, nesse caso, é aquela que vê na ação humana um potencial desafio à ordem divina. Deus, então, diz: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito”. Deus aposta no “justo” Noé para que o renascimento do mundo, quando as águas baixarem, repare a aliança do homem com Ele.

Na época do grande terremoto de Lisboa, em 1755, Voltaire ironizou os padres que atribuíram a tragédia – com tsunami e tudo – à ira divina por causa dos pecados dos portugueses. Que Deus era aquele, disse o pensador francês, que castigava indiscriminadamente homens, mulheres e crianças, vítimas que nem sabiam o que era pecado? Rousseau rebateu a ironia, argumentando que Deus não tinha culpa se os lisboetas haviam construído uma cidade bem no lugar onde as forças da natureza se manifestariam naquela magnitude. Foram vítimas do “pecado” da vontade humana de vencer a natureza e submetê-la a seus desígnios.

Um século depois, esse mesmo espanto ante o progresso humano foi expresso como problema ideológico no Manifesto Comunista, de Marx e Engels: “A burguesia, durante seu domínio de classe, apenas secular, criou forças produtivas mais numerosas e mais colossais que todas as gerações passadas em conjunto. A subjugação das forças da natureza, as máquinas, a aplicação da química à indústria e à agricultura, a navegação a vapor, as estradas de ferro, o telégrafo elétrico, a exploração de continentes inteiros, a canalização dos rios, populações inteiras brotando na terra como por encanto – que século anterior teria suspeitado que semelhantes forças produtivas estivessem adormecidas no seio do trabalho social?”. Soa como elogio, mas, pelo contrário, é exatamente esse espanto que permeia a retórica anti-industrial e antimoderna desde os tempos do Romantismo até a era atual da militância verde.

Segundo essa mensagem, a Terra está sendo “ferida” pela ganância burguesa, aquela classe responsável pelo desencantamento do mundo. A cada tragédia natural, recicla-se um discurso que mal esconde a nostalgia daquilo que se imagina tenha sido o idílico Paraíso oferecido aos homens pela infinita bondade de Deus. No Éden, bastava viver em “harmonia” com a natureza – isto é, bastava aceitar a subordinação à ordem divina e renunciar à capacidade racional de transformar o mundo – para que o homem fosse feliz.

Esse ideal da “harmonia”, como se sabe, é exatamente o que está no âmago do pensamento fundamentalista e totalitário.