O sonho democrático da Tunísia

Marcos Guterman

24 de outubro de 2011 | 18h08

Na histórica eleição na Tunísia, a primeira desse país árabe, um partido islâmico moderado, o popular Ennahda (renascimento),  saiu-se como o grande vencedor.

Ao votar, o líder do Ennahda, Rashid al-Ghannushi, foi hostilizado por eleitores endinheirados que preferem uma transição rumo a um regime de inspiração ocidental – ou seja, laico e liberal. Pode ser o prenúncio de um choque cultural, agravado pelo fato de que os pobres, maiores eleitores do Ennahda, não estão preocupados com democracia ou liberdades, mas com emprego. Mas o Ennahda se comprometeu a respeitar a democracia e os direitos das mulheres, e os tunisianos já mostraram do que são capazes quando seu governo não cumpre o que promete.

A sensação generalizada, portanto, é de orgulho. O ex-dissidente Moncef Marzouki resumiu o momento:  “Os tunisianos mostraram ao mundo como fazer uma revolução pacífica sem ícones, sem ideologia, e agora vamos mostrar ao mundo como construir uma verdadeira democracia”. Se ele estiver certo, cairá por terra a presunção segundo a qual o mundo árabe não tem preparo cultural para a democracia. E isso pode ter efeitos devastadores para as tiranias da região, mais do que a imagem do cadáver de Kadafi exibido num freezer de shopping.

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