O show da notícia no Haiti

Marcos Guterman

22 de janeiro de 2010 | 00h26

O jornalismo americano de TV parece estar entrando numa fase mais, digamos, “participativa”, como mostra o blog da redação do Le Monde. Não contentes em reportar os fatos, alguns jornalistas se mostram dispostos a se integrar a eles. A tragédia no Haiti se apresenta como palco ideal para o “espetáculo” desse voluntarismo que, no limite, é uma nova forma de sensacionalismo.

No vídeo abaixo, dá para ver em ação uma das estrelas dessa modalidade, o repórter Anderson Cooper, da CNN. Como um herói, ele ajuda um jovem atacado por supostos criminosos haitianos.

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A pergunta suscitada por esse tipo de conduta profissional é óbvia: supondo que o distanciamento seja um dos pilares desse trabalho, como se aprende em qualquer faculdade de jornalismo, o jornalista que se empenha em se tornar ele próprio a notícia tem crédito suficiente para reportá-la?

Por outro lado, o que deve fazer um jornalista colocado diante do dilema entre reportar a morte de alguém e ajudar essa pessoa a se salvar se tiver a chance? Essa parece ser uma falsa questão, porque, afinal, salvar a vida de alguém deveria estar acima de qualquer outra consideração. O busílis é quando se cria um modelo de jornalismo que privilegia a ação espetacular do jornalista, transformando-o num Indiana Jones da mídia, que acrescenta emoção onde só deveria caber informação.

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