O que Mussolini tem a ensinar sobre Kadafi

Marcos Guterman

23 de outubro de 2011 | 18h03

Mussolini e sua amante, Clara Petacci, após execução sumária e linchamento: perto deles, Kadafi teve tratamento VIP

 

Ninguém discute que Muamar Kadafi deveria ter sido preso e levado a julgamento pelos crimes que cometeu na Líbia. É assim que funciona em sociedades civilizadas. Mas é claro também que interessa aos cínicos de sempre transformar a morte do ditador numa oportunidade para tentar desmoralizar o Ocidente.

Segundo essa turma, foi a ação militar da Otan que franqueou aos rebeldes líbios a deixa para transformar a caçada a Kadafi em vingança bárbara – considerando-se que o tirano tenha mesmo sido executado, o que ainda é mera especulação. É quase como se o “imperialista” Obama, sedento de petróleo, tivesse empunhado a pistola que apagou o ditador.

O mundo desse pessoal é de uma simplicidade tocante. Há os “maus” (EUA, Israel, Europa) e os “bons” (árabes, índios e altermundistas em geral, sempre tratados como inocentes vítimas da desumanidade dos “imperialistas” e moralmente superiores a eles). Nesse mundo binário, não existe zona cinzenta. Se Kadafi foi capturado vivo e apareceu morto, é lógico que ele foi covardemente executado – e isso, na visão poética dos altermundistas, é sinal de que a transição líbia “começou mal” e pode indicar, até, que o futuro do país será ainda mais sangrento que o presente.

No entanto, se Kadafi foi realmente assassinado, isso não quer dizer grande coisa sobre o futuro. É conveniente lembrar que o ditador Benito Mussolini foi barbaramente executado e teve seu corpo pendurado de ponta-cabeça por partisans italianos – liderados pelos comunistas, aparentados daqueles que hoje se “horrorizam” com o tratamento supostamente desumano dado a Kadafi. Nem por isso a Itália desceu à barbárie depois da guerra – dos escombros, pelo contrário, vieram a república, um forte crescimento econômico e um país que se tornaria uma das grandes potências globais.

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