O que é, afinal, um “nazista”?

Marcos Guterman

19 de julho de 2011 | 21h55

O advogado americano Mike Godwin é o autor de uma máxima (a “Lei de Godwin”) segundo a qual quase todas as discussões na internet em algum momento vão virar feira e um dos contendores chamará outro de “nazista”. A brincadeira mostra que, aparentemente, não existe xingamento maior do que “nazista”, pelo menos entre os palavrões publicáveis. No entanto, raras são as vezes em que o sentido adequado do termo é conhecido tanto por quem ofende quanto por quem é ofendido. Fica-se na superfície da palavra, no significado consagrado pela literatura barata e pelo sensacionalismo cinematográfico. Isso se dá mesmo em situações nas quais os protagonistas têm reconhecida capacidade intelectual, como foi o caso do embate entre o curador da última edição da Flip, Manuel da Costa Pinto, e um de seus principais convidados, o cineasta Claude Lanzmann. Como se sabe, Costa Pinto disse que a atitude de Lanzmann, ao recusar-se a responder a uma pergunta sobre seu filme Shoah, era “coisa de nazista”. A intenção do curador foi denunciar uma suposta postura anti-intelectual do cineasta.

De fato, o nazismo é um movimento que tem no combate à capacidade reflexiva um de seus pilares. No entanto, isso não deveria transformar em “nazista” qualquer debatedor que se recuse a responder uma pergunta. Por que Lanzmann não foi comparado, por exemplo, a Pol Pot, que mandava matar quem usava óculos porque isso sinalizava atividade intelectual? Por que ele não foi comparado a Stálin, que transformou intelectuais em alegres avalistas da barbárie? Melhor: por que ele não foi somente criticado por se recusar a debater, em vez de ser colocado no mesmo patamar de seguidores de uma ideologia genocida?

O problema todo é que Lanzmann é judeu e teve sua vida diretamente ligada ao combate ao nazismo, tanto como resistente francês como quanto artista. Ligá-lo a um suposto comportamento “nazista” é, portanto, uma dupla ofensa, reação muitos graus acima do razoável nesse caso. Não se quer dizer que Costa Pinto tenha feito isso de propósito, nem que Lanzmann não merecesse ser admoestado por sua grosseria. Mas o escorregão do curador da Flip reitera a apavorante banalização do nazismo, menos de sete décadas depois de seu fim oficial.

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