Dar dinheiro aos pobres funciona

Marcos Guterman

17 de agosto de 2009 | 18h02


Membro de ONG explica o programa em Otjivero: sem milagres

Otjivero é um vilarejo de mil habitantes na Nigéria. Lá, pouco tempo atrás, o desemprego era de 70%, a desnutrição infantil atingia 42% e só havia uma escola. O lugar era tomado pelo alcoolismo e pela Aids. Hoje não é mais assim, graças à aplicação de um programa de renda mínima implantado por uma ONG luterana, conforme mostra extensa reportagem da revista Der Spiegel.

Cada cidadão de Otjivero tem o direito de receber, todo mês, o equivalente a R$ 24. Nenhuma contrapartida é exigida – o beneficiado pode gastar em álcool ou em comida. O importante, segundo os idealizadores do programa, é que os moradores tenham pelo menos a chance de não passar fome e, portanto, de concentrar suas energias em algo produtivo para superar a miséria absoluta.

Funcionou, conforme mostram os indicadores: a freqüência escolar subiu 92% no último ano, a desnutrição infantil caiu para 10%, a polícia registrou acentuado declínio da violência e muitos moradores se tornaram pequenos empreendedores. Acima de tudo, porém, a dignidade disseminou-se. “Agora tenho calças e uma camisa. Agora sou uma pessoa”, disse um beneficiado.

Com tudo isso, porém, o programa não é uma unanimidade. Para os fazendeiros brancos que cercam Otjivero com arame eletrificado, dar dinheiro para os moradores significa fazê-los acomodar-se e dispensar o trabalho. “Todos eles bebem”, diz o fazendeiro nigeriano de origem alemã Siggi von Lüttwitz. “Se você lhes der dinheiro, eles vão beber ainda mais. É uma idéia idiota.”

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