O poder pode fazer mal à saúde

Marcos Guterman

17 de novembro de 2008 | 05h46


Blair e Bush: afinidades patológicas

O exercício do poder pode se transformar numa doença mental e colocar todo um país em risco. É o que alerta David Owen, autor de In Sickness and In Power, livro que se dedica a mostrar que o comportamento arrogante de alguns chefes de Estado não é um traço de personalidade, mas sim uma patologia, a “Síndrome da Arrogância”.

O estudo do ex-médico britânico, resenhado na Foreign Affairs, primeiro dá exemplos de como doenças podem interferir na capacidade de tomar decisões. Um caso é o de Anthony Eden, premiê britânico que sofria da vesícula durante a Crise de Suez, em 1956. Em razão dos medicamentos que tomava, sobretudo Drinamyl, ele tinha febre, insônia e acessos de superconfiança, desligando-se do mundo real. Para Owen, Eden, normalmente ponderado, foi convencido por Israel e França a enganar os EUA e a fazer a guerra contra o Egito por causa de seu estado deplorável de saúde.

Outro caso levantado por Owen é o de Kennedy. O episódio desastroso da Baía dos Porcos teria sido resultado direto das doenças do presidente americano – ele sofria de Mal de Addison, uma insuficiência supra-renal crônica, e fortes dores nas costas, problemas para os quais ele não recebeu tratamento adequado durante muito tempo. Mais tarde, com uma nova equipe médica a observá-lo, Kennedy estava em melhores condições para tomar decisões, como na Crise dos Mísseis em Cuba.

Mas Owen fala também do exercício de poder em si como uma doença. Segundo ele, a experiência do comando pode levar a alterações patológicas, narcisismo e comportamento irresponsável. O líder que sofre da “Síndrome da Arrogância” se convence de que está no poder para grandes feitos e que o mundo espera isso dele, mesmo que signifique atropelar considerações morais e as regras básicas da boa administração. Quanto mais tempo no poder, maior é a doença, casos de Mao, Fidel e Mugabe.

Owen cita também os exemplos de Tony Blair e de George W. Bush, considerados por ele “especialmente narcisistas”. O autor descreve uma reunião de Bush com o negociador palestino Nabil Shaat, em 2002, na qual o presidente americano teria dito: “Estou numa missão divina. Deus me disse: ‘George, vá lá e acabe com a tirania no Iraque’. E eu fui”.
Para Owen, o principal remédio contra a “Síndrome da Arrogância” é, antes de mais nada, o fortalecimento das instituições democráticas.

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