O PIB não é tudo nessa vida

Marcos Guterman

07 de janeiro de 2012 | 16h59

O PIB é a medida da riqueza de um país – e ultimamente tem assanhado os apóstolos lulistas, encantados com a notícia de que o PIB brasileiro vai superar o do Reino Unido. No entanto, parece cada vez mais claro que o valor dessa medida não é significativo quando se trata de observar os avanços sociais, econômicos e de infra-estrutura de um país em relação aos demais.

O caso japonês é típico, como mostra o jornalista Eamonn Fingleton em artigo no New York Times. Invocado nos EUA desde os anos 90 como exemplo do que acontece com um país quando sua economia entra em estagnação, o Japão, pelo contrário, atravessou as chamadas “décadas perdidas” sofisticando sua indústria, aprimorando sua infra-estrutura e melhorando substancialmente a qualidade de vida de seus cidadãos, que em muitos aspectos é bastante superior à dos americanos. Os avanços em tecnologia, marca do domínio americano desde os anos 50, têm sido mais acentuados no Japão. Mas nada disso aparece nas medições quantitativas do PIB, segundo as quais os EUA cresceram mais que o Japão no período e, portanto, ficaram “mais ricos” que os japoneses.

O mesmo poderia ser aplicado ao caso brasileiro, cujo PIB nos coloca como o gigante do Hemisfério Sul, dono da oitava economia do mundo, à frente da França e, como se sabe, pau a pau com o Reino Unido. Já se disse que, embora com PIB equivalente, o Brasil está muito longe de ter uma qualidade de vida semelhante à dos britânicos e franceses – o próprio ministro Guido Mantega, que é um otimista, disse que isso só vai acontecer daqui a uns 20 anos. Então, poderíamos comparar o Brasil com a Argentina, que é nosso vizinho júnior e aparece no distante 23º lugar do ranking dos PIBs, ou com o Chile, que é o 45º. Mesmo nesses casos, porém, a comparação seria desastrosa para nós: o Brasil tem uma rede de água e esgoto que cobre apenas 77% do país, contra 85% na Argentina e 97% no Chile; a taxa de alfabetização brasileira é de 90%, contra 97% na Argentina e 95% no Chile – em números absolutos, o Brasil é o oitavo do mundo em número de analfabetos; no Índice de Desenvolvimento Humano, o Chile é o latino-americano mais bem colocado (44º), seguido da Argentina (45º), e o Brasil aparece num distante  84º lugar, abaixo de Barbados, Antígua e Barbuda e Trinidad e Tobago.

Dizer que somos a sétima ou sexta economia do mundo pode ser bom para inflar egos governistas, empenhados em pirotecnias eleitorais e demagógicas, mas está longe de representar a realidade dramática de um país que, não obstante suas aspirações de superpotência, apresenta ainda deficiências tão profundamente primárias.