O pedreiro Adimar e o Estado criminoso

Marcos Guterman

21 de abril de 2010 | 01h10

O caso do pedreiro Adimar Jesus da Silva, assassino confesso de seis jovens que foi encontrado morto dentro da cela, é exemplar da perversa informalidade brasileira.

Aqui, o racismo não é, por exemplo, como foi na África do Sul, aplicado como política oficial. Aqui, os brasileiros, felizes por sua “convivência racial”, excluem os negros de quase tudo, salvo dos campos de futebol e da arte popular. O racismo é disfarçado pelo “valor” que os negros obtêm como artistas, por causa do uso de seu corpo e de sua musicalidade, como seres exóticos, que lembram a ancestralidade hominídea, animal. Estão muito longe de ter influência como os brancos intelectuais, empresários e políticos, pessoas em quem confiamos os destinos do país. Quem precisa de apartheid, afinal?

Do mesmo modo, aqui a pena de morte não existe no Código Penal. Formalmente, consideramos uma estupidez jurídica tirar a vida de um condenado. Na prática, porém, como mostrou o caso de Adimar, a pena de morte existe e é aplicada sem que cause comoção – pelo contrário, o país sabia que Adimar morreria na cadeia e, para muitos, ele merecia morrer. Quem precisa de pena de morte, afinal?

Antes de se enforcar na prisão, contudo, o pedreiro passou por um meticuloso processo de animalização. A cela em que ele estava só tem equivalente nas antigas senzalas. Foi colocado lá por ter cometido crimes que chocaram o país – ou seja, a “Justiça” referendou a barbárie como resposta à barbárie, alimentando um ciclo de desumanização de pessoas que simplesmente não interessam mais, se é que algum dia interessaram. Gente como o pedreiro Adimar pode ser aniquilada sem que a “civilização” se abale por causa disso. Pelo contrário: cumprem-se dois objetivos: o primeiro, claro, é a vingança; o segundo, menos óbvio, é que, ao varrer o criminoso para debaixo do tapete, encontramos uma forma de neutralizar a responsabilidade da sociedade por tê-lo produzido.

Dar condições mínimas de dignidade aos presos significaria tratá-los como seres humanos – isto é, como pessoas iguais a nós. Reduzir os presos a animais, por outro lado, transforma o próprio Estado em criminoso e colabora com a crescente sensação de descartabilidade, típica de sociedades doentes.

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