O pecado do artista invalida sua arte?

Marcos Guterman

25 de janeiro de 2011 | 00h15

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) foi o sujeito que, em 1937, disse que não combateria Hitler para ajudar os judeus. Em relação ao premiê francês da época, o judeu Léon Blum, ele escreveu: “Prefiro uma dúzia de Hitlers a um todo-poderoso Blum. Hitler, pelo menos, eu consigo entender, enquanto com Blum é perda de tempo, ele sempre será o pior inimigo, absolutamente odioso”. Esse mesmo cavalheiro seria celebrado nesta semana pelo governo francês como uma das grandes personalidades da história do país. Pressões de grupos judaicos, porém, levaram o ministro da Cultura da França, Frederic Mitterrand, a retirar Céline da homenagem.

Céline é um dos grandes escritores contemporâneos. Sua obra mais importante, Viagem ao Fim da Noite, é um retrato impactante de uma sociedade em transformação, no mergulho da loucura da guerra e da industrialização frenética, em nome do racionalismo. Cheio de cinismo, o livro é um dos marcos da literatura do século 20, justificando a homenagem que lhe seria feita.

A julgar pela reação dos grupos judaicos e do próprio governo da França, porém, a genialidade artística de Celine não é suficiente para que se relativize seus pecados. Exige-se dele o que não se exigiu do antissemita Dostoiévski, por exemplo, ou de Gabriel García-Marquez, amigo íntimo do ditador Fidel Castro.

É compreensível que a figura de Céline cause repulsa por causa de seus panfletos. Mas, como brincou o presidente Nicolas Sarkozy tempos atrás, “pode-se amar Céline sem ser um antissemita, assim como pode-se amar Proust sem ser um homossexual”.

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