O passado de Dilma

Marcos Guterman

04 de novembro de 2010 | 12h00

O historiador Carlos Fico, conhecido por seu importante trabalho de pesquisa sobre o regime militar brasileiro, pediu demissão do Memórias Reveladas, projeto do governo Lula criado para preservar e difundir documentos da ditadura. Foi uma forma de protestar contra a dificuldade de acesso aos papéis – a alegação do Arquivo Nacional, responsável pela guarda, é que “jornalistas estariam fazendo uso indevido da documentação buscando dados sobre os candidatos envolvidos na campanha (presidencial)”, informa o jornal O Globo.

“Não podem os arquivos brasileiros arvorarem-se em intérpretes do direito à privacidade e arbitrarem — conforme as idiossincrasias do funcionário ocasionalmente situado na posição de decidir — se este ou aquele documento agride a honra ou a imagem de alguém”, escreveu Fico em sua carta de renúncia.

O Memórias Reveladas, como diz o próprio site do projeto, foi criado para colocar “à disposição de todos os brasileiros os arquivos sobre o período entre as décadas de 1960 e 1980 e das lutas de resistência à ditadura militar, quando imperaram no País censura, violação dos direitos políticos, prisões, torturas e mortes”. Segundo o texto, “trata-se de fazer valer o direito à verdade e à memória”.

Aparentemente, porém, há certos aspectos das “lutas de resistência à ditadura militar” que o governo Lula considerou impróprios para divulgação em meio à campanha eleitoral. Os dois principais candidatos à Presidência, Dilma Rousseff e José Serra, participaram da resistência ao regime de exceção. O caso de Dilma é, em particular, delicado. Enquanto Serra esteve no exílio, a petista permaneceu no país e integrou-se à luta armada – ela foi militante ativa da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, cujo programa, em setembro de 1969, dizia textualmente que “o objetivo da revolução brasileira é (…) o da conquista do poder político pelo proletariado, com a destruição do poder burguês que explora e oprime as massas trabalhadoras”.

O caso do Memórias Reveladas não foi o único recente em que houve dificuldade de acesso a documentos sobre o regime militar. A Folha tentou obter o processo da ditadura contra Dilma, mas o Superior Tribunal Militar recusou.

Atitudes como essa apenas reforçam a sensação de que Dilma foi um personagem inteiramente artificial na campanha. A censura aos documentos, em lugar de preservar Dilma, dá margem à interpretação de que a imagem dela como uma guerrilheira que lutou “em defesa da democracia” no Brasil foi mera criação publicitária.

Nada disso ajuda os brasileiros a saber quem é, de fato, sua futura presidente.

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