O papa que não sabia

Marcos Guterman

05 de fevereiro de 2009 | 00h45

A decisão do papa Bento 16 de reintegrar à Igreja Católica um notório negador do Holocausto causou indignação em várias partes do mundo, mas o caso provocou maior convulsão justamente na Alemanha – terra natal do atual pontífice e país que inventou o nazismo. A reação negativa nem de longe se restringiu aos judeus. Muitos católicos expressaram publicamente seu ressentimento com o líder supremo da igreja que integram. Mesmo dentro do Vaticano a decisão de Bento 16 foi difícil de entender.

O caso estourou há duas semanas, quando o papa ordenou a suspensão da excomunhão do bispo tradicionalista britânico Richard Williamson. Para esse religioso, “nenhum judeu morreu em câmaras de gás”, e o número de judeus mortos pelos nazistas não supera 300 mil. Sobre seu anti-semitismo, Williamson disse, em entrevista: “Anti-semitismo só é ruim se for contra a verdade. Mas, se algo é verdadeiro, não pode ser ruim. Não estou interessado na palavra anti-semitismo”.

O bispo Gerhard Müller, de Regensburg, que também é tradicionalista, disse à Der Spiegel não saber por que o papa “estendeu as duas mãos” a um bispo que “inventou histórias de modo idiota e escandaloso”. O jesuíta Klaus Mertes relatou que há “ultraje” entre os católicos, tanto em relação a Williamson como em relação à decisão de Bento 16. Internautas católicos em fóruns de discussão foram mais diretos. Um deles escreveu: “Williamson está cometendo um crime na Alemanha, enquanto o papa o premia tornado-o bispo da igreja. O que aconteceria se Williamson explodisse uma bomba numa sinagoga? O papa o faria cardeal?”

No Vaticano, o cardeal Walter Kasper, amigo do papa e presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade Cristã, disse que Bento 16 não consultou ninguém sobre sua decisão. Kasper renunciou ao cargo.

Bento 16 aparentemente sentiu a pressão. Mandou dizer que não sabia que Williamson era um negador do Holocausto e, nesta quarta-feira, exigiu que o religioso se retratasse como condição para que sua reintegração fosse efetivada. Isso deve bastar para acalmar os ânimos, ainda que os danos causados pela crise sejam imprevisíveis.

Mas o caso todo levanta questões importantes. O papa está isolado? Estará ele cercado de assessores incapazes de contrariá-lo ou de alertá-lo para eventuais erros? Terá ele perdido contato com o mundo exterior, isto é, a vida real fora das muralhas do Vaticano? Visto que Bento 16 é o líder de milhões de fiéis ao redor do mundo, tido como farol moral e espiritual em meio às controvérsias do mundo contemporâneo, isso não é pouca coisa.

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