O narcisismo do mundo árabe

Marcos Guterman

03 Fevereiro 2010 | 00h02

O mundo árabe e islâmico é insensível ao sofrimento de países e povos fora desses limites. É o que diz o intelectual palestino Khaled Hroub, que leciona em Oxford, em contundente artigo publicado no jornal Al-Hayat.

Segundo Hroub, a ausência de ajuda governamental substantiva vinda do mundo árabe e muçulmano para os haitianos “é uma desgraça no pleno sentido dessa palavra”.

Ele criticou os milionários árabes “que gastam milhões em festas e consumismo” e que se ausentaram da lista dos que colaboraram para minorar o sofrimento haitiano.

“Mesmo a mídia árabe”, segue Hroub, “não deu e não dá importância suficiente para a tragédia.” Nisso concorda a comentarista Octavia Nasr, da CNN, que escreveu em seu blog: “Com exceção da imprensa escrita libanesa, que deu destaque para o Haiti na primeira página, a mídia árabe fez menções modestas à devastação e à tragédia humana. Nos maiores canais de TV, como a Al-Jazeera e a Al-Arabiya, o terremoto e suas conseqüências foram citados como uma notícia entre outras tantas, internacionais e regionais. Nos jornais da Jordânia, a morte de três soldados jordanianos da ONU era a manchete que introduzia a tragédia haitiana. O mesmo aconteceu na Tunísia”.

Hroub atacou ainda o fato de que a imprensa árabe preferiu enfatizar a “ocupação” do Haiti pelos soldados americanos: “Muitos analistas árabes defenderam a ‘soberania’ do Haiti com mais zelo do que os próprios haitianos ou o governo haitiano, que estavam implorando pela ajuda dos EUA e de outros países do mundo”. Além disso, segundo ele, leitores em sites da mídia árabe produziram “comentários asquerosos” que diziam que “Allah puniu esse país pobre e seu povo por causa de sua corrupção”. “Nossa tortuosa mentalidade religiosa e nossa noção de recompensa divina nos inculcou um modo doentio e mecânico de pensar que não deixa espaço para nenhum sentimento humano. Essa desgraça é uma das características do que pode ser visto como nossa vergonhosa era árabe.”

Hroub fez críticas também à cínica instrumentalização política do episódio haitiano. “Um detalhe interessante é que, na lista (de países que ampliaram a ajuda ao Haiti), estão ausentes todos os que brandem a espada contra o ‘imperialismo’. Chávez, o guerreiro revolucionário, que discursa tanto contra os EUA na América Latina, não colocou a Venezuela entre os países que ofereceram ajuda substancial. O mesmo se aplica ao Irã.” Segundo ele, a retórica da ajuda como uma obrigação divina “está confinada à ajuda aos muçulmanos”, e “a dor dos não-muçulmanos não merece atenção”.

Ele diz que muitos, no mundo árabe, defenderam que o socorro destinado ao Haiti deveria ser enviado a Gaza, o que, em sua opinião, é uma inversão óbvia de prioridades. “O desastre do cerco a Gaza, e o papel árabe em perpetuá-lo, são uma desgraça em si. O sofrimento de centenas de milhares de moradores de Gaza sob o cerco israelense e ocidental é condenável. No entanto, nossa solidariedade a Gaza não deveria eliminar nossa sensibilidade para a catástrofe dos outros, especialmente quando o sofrimento deles é muito maior do que o nosso.”