O mundo respira melhor hoje

Marcos Guterman

20 de outubro de 2011 | 19h03

Muamar Kadafi foi capturado vivo, como dá para ver neste vídeo. Convenientemente, logo depois, já estava morto. Do ponto de vista dos novos donos do poder na Líbia, manter o ditador vivo e eventualmente levá-lo a julgamento teria o potencial de prolongar a guerra civil. Agora, esse cenário não faz sentido.

Para os rebeldes, o importante agora é apressar a transição e construir uma narrativa que lhes pavimente o caminho para a aceitação nacional do novo regime. Isso já começou. Espalham-se relatos de que Kadafi estava escondido num cano de esgoto, como um bom rato que era; essa imagem, verdadeira ou falsa, servirá para alimentar o retrato que os rebeldes querem construir de seu inimigo. Nada de novo aí: tudo isso faz parte do processo de reconstrução do país a partir da ruptura com o passado.

O futuro, porém, é mais nebuloso. Kadafi se foi, mas os líbios que foram leais a ele – quer porque o temessem, quer porque acreditassem nele – ainda estão no país e não podem ser simplesmente expurgados. No Iraque, foi isso o que aconteceu após a queda de Saddam Hussein, e o resultado foi a polarização sangrenta de uma sociedade já naturalmente dividida.

Mas a “nova” Líbia parte de uma condição melhor do que o “novo” Iraque. Sem ter sido alvo de sanções nos últimos anos, a economia líbia produziu uma infra-estrutura bastante razoável e que não foi tão afetada pela guerra como a iraquiana. Para aproveitar essa oportunidade, será necessário que o novo governo construa um consenso em torno de como administrar a frágil situação atual rumo à estabilidade. O papel do Ocidente, neste caso, não pode se encerrar na participação militar – será necessário apoiar com vigor a transição, inclusive em termos de segurança e de investimentos, para que não restem dúvidas sobre seu compromisso com o futuro pacífico do país.

Seja como for, o importante é que a Líbia se livrou de um ditador sanguinário, um dos mais bárbaros da história contemporânea. O mundo está respirando melhor hoje.

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