O meu, o seu, o nosso: o Corinthians é mesmo o "time do povo"

Marcos Guterman

21 de julho de 2011 | 00h02

Acabou a hipocrisia: o tal estádio do Corinthians será mesmo uma arena bancada para a Copa com dinheiro público – federal, estadual e municipal – para uso exclusivo de uma entidade privada. O evidente despropósito dessa situação, porém, não será objeto de escrutínio real, salvo dos chatos de sempre – a tal “imprensa golpista”, essa que insiste em ficar aborrecendo a vanguarda da transformação do Brasil em potência interplanetária.

O mais curioso é que provavelmente os próprios corintianos, salvo honrosas exceções, tampouco se incomodarão com o fato de que o dinheiro de seus impostos também está no cofre ora arrombado para custear o Itaquerão (que já pode ser chamado de “Isentão”). Pelo contrário: vão qualificar os críticos de invejosos, já que há uma acentuada indistinção entre a vida do time de futebol e a vida pessoal do torcedor. “Loucos”, por definição, são incapazes de refletir sobre o objeto de sua “loucura”.

Se quisessem mesmo contribuir para a construção de seu estádio, os corintianos poderiam repetir o exemplo dos vascaínos, que, na década de 20, passaram o chapéu entre torcedores ricos e pobres para arrecadar fundos e erguer São Januário. Seria honesto – e não tungaria o dinheiro de contribuintes que não são corintianos ou nem sequer se interessam por futebol.

Mas isso, como dizem os céticos, é coisa do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Hoje, um século depois, o futebol não é para crianças. E em países de frágil tradição democrática e com notável inclinação ao populismo, como o Brasil, clubes como Corinthians e Flamengo são agentes políticos poderosos. Ao mesmo tempo em que é generosamente amparado pelos impostos do contribuinte brasileiro, o Corinthians, como uma estatal ousada, se dispõe a pagar fábulas para tentar contratar jogadores como Tevez e Neymar – e pouca gente parece se espantar com isso.

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