O julgamento de Bin Laden

Marcos Guterman

07 de maio de 2011 | 13h07

Há quem diga que Bin Laden deveria ter sido capturado e levado a julgamento – ou num tribunal internacional, ou numa corte americana. Dizem que Bin Laden poderia dar informações importantes para “salvar vidas inocentes” e que seu julgamento seria a reafirmação dos mais caros valores democráticos ocidentais.

Em primeiro lugar, parece haver uma certa inocência em acreditar que seria possível obter de Bin Laden alguma informação relevante para “salvar vidas inocentes”. Quando muito, o terrorista usaria o tribunal como palanque político, como fizeram Adolf Hitler em 1924, Slobodan Milosevic em 2002 e Saddam Hussein em 2005. Até sobre aquecimento global o terrorista vinha falando ultimamente.

Mesmo quem defende que Bin Laden fosse julgado, para “experimentar” o sistema de um Estado de Direito, sabe que tudo talvez acabasse sendo apenas um show, como foi o julgamento de Adolf Eichmann. Como se sabe, o burocrata do genocídio dos judeus da Europa foi capturado pelos israelenses quando desfrutava de tranquilo exílio na Argentina, em 1960, e levado para um tribunal em Jerusalém. Tudo estava de acordo com o figurino: havia um juiz, um promotor, advogados de defesa e testemunhas, além, claro, do réu. O que se viu, porém, foi um teatro montado pelo governo de Ben Gurion com um único objetivo: mostrar ao mundo que os judeus deixaram de ser as vítimas passivas e tornaram-se capazes de cuidar de seu próprio destino, o que inclui enfrentar seus piores algozes, de modo a não deixar dúvidas sobre sua resiliência pós-Holocausto.

Assim, o julgamento de Eichmann, cujo desfecho era absolutamente previsível, foi o palco por onde desfilaram os testemunhos necessários para caracterizar o Mal contra o qual os judeus, representados por Israel, passariam a lutar com todas as forças – isto é, a ameaça existencial. O mesmíssimo Israel que julgou Eichmann foi capaz de caçar os palestinos responsáveis pelo massacre de atletas israelenses em Munique, em 1972. A reação foi diferente, mas a natureza da mensagem israelense permaneceu a mesma: a de que os inimigos mais ferozes dos judeus, que agiram sem constrangimentos durante tantos séculos, não poderiam mais dormir sossegados.

Do mesmo modo, no caso de Bin Laden, em vez de servir de exemplo de como a democracia ocidental funciona, o julgamento do terrorista seria uma encenação – já que, afinal, a sentença estaria decidida antes mesmo de a primeira sessão começar. Podemos especular que essa encenação serviria para provar os altos valores americanos, capazes de dar um julgamento “justo” mesmo a seu pior inimigo. Obama, porém, talvez tenha concluído que os EUA afinal não têm necessidade de provar nada a ninguém e preferiu a via rápida, isto é, a execução sumária ­– que também não deixa de ter a força de uma clara mensagem aos terroristas: a de que os americanos não hesitarão em liquidá-los se tiverem oportunidade, porque eles afrontam os princípios mais caros à civilização ocidental.

Para resumir, o julgamento de Bin Laden teria ocorrido se o mundo fosse um lugar perfeito, sem contradições nem circunstâncias excepcionais. Mas o mundo não é um lugar perfeito.