O Grande Satã estende a mão

Marcos Guterman

20 de março de 2009 | 11h50

O presidente dos EUA, Barack Obama, gravou uma mensagem em vídeo, legendada em farsi, na qual oferece aos iranianos uma nova era de relações. A mensagem foi divulgada no Irã e, com seu peso histórico de reaproximação após 30 anos, é até agora o maior sintoma do espírito da nova política externa americana.

A perspectiva de “ataque preventivo”, centro da doutrina Bush, dá lugar à “diplomacia preventiva” – isto é, Washington está claramente disposto a tomar a iniciativa, antecipando-se e abrindo as portas para fazer prevalecer sua agenda, que no caso de Barack Obama significa restaurar a imagem dos EUA no Oriente Médio, aliviar as tensões regionais e, finalmente, isolar os radicais, expondo-os como intransigentes. A retirada americana do Iraque e a oferta de diálogo com o Irã estão nesse contexto.

Os anos Bush foram extremamente benéficos para a linha dura iraniana. Serviram como argumento para que Teerã, na condição de vítima da perseguição do Grande Satã, reivindicasse o papel de líder regional antiamericano, o que incluiu o estímulo ao terrorismo palestino e a formação do “arco xiita” envolvendo o Líbano. Ajudou também a construir a retórica da soberania em torno de seu projeto nuclear, obviamente voltado para a fabricação de um arsenal nuclear.

Com a jogada de Obama, a bola está agora no campo iraniano. Teerã, tomado de surpresa, respondeu ao apelo americano de modo previsível, dizendo que antes de uma reaproximação é necessário que os EUA se penitenciem pelos “erros do passado”, o que é basicamente uma forma de ganhar tempo.

O timing da oferta de Obama é também interessante. O Irã terá eleições em junho, e a desastrosa situação econômica do país, em grande medida fruto dos erros administrativos do governo Ahmadinejad, ameaça dar votos à oposição reformista – cujo principal candidato, o ex-premiê Mir Hossein Mousavi, embora apóie o polêmico programa nuclear iraniano, afirma que chegou a hora de discutir valores como “liberdade” no Irã. Com a disposição americana para dialogar, é possível que a candidatura oposicionista ganhe fôlego.

Os efeitos secundários da oferta de Obama também não são desprezíveis. O principal deles talvez seja sentido em Israel, o principal inimigo do Irã. Também alimentada pela era Bush, a linha dura israelense ficou à vontade nos últimos anos para agir sem constrangimentos em nome da “guerra ao terror”, impondo aos palestinos uma punição coletiva difícil de explicar em circunstâncias civilizadas. Além disso, Israel sempre considerou ter o apoio automático da Casa Branca contra o Irã, que integrou o “eixo do mal” de Bush. Agora, às vésperas de formar um governo liderado por um autêntico representante da extrema direita, é provável que Israel tenha de lidar com o fato de que a simpatia americana não será mais incondicional. Pode ter sido apenas coincidência, mas também hoje o futuro primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, pediu mais duas semanas para formar o governo, na expectativa de atrair os moderados e dar à sua administração um perfil mais palatável no contexto diplomático regional.

Além disso, no que pode ter sido algo concertado com Washington, o presidente de Israel, Shimon Peres, também enviou uma mensagem aos iranianos. Em áudio, Peres apelou ao “nobre povo do Irã, em nome do antigo povo judeu”, a retomar “seu merecido lugar entre as nações esclarecidas”.

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