O Estado judeu não pode ser só judeu

Marcos Guterman

11 de outubro de 2010 | 00h55

O governo de Israel aprovou o envio para o Parlamento de um projeto de lei que obriga os não-judeus que buscam cidadania israelense a jurar lealdade a Israel como um Estado democrático e judaico. A proposta é defendida pela ultra-direita, liderada pelo chanceler Avigdor Lieberman, aquele que gostaria de ver Israel sem árabes. Trata-se de uma provocação que serve somente ao premiê Binyamin Netanyahu para barganhar com seus recalcitrantes associados no governo que se opõem à continuidade das negociações com os palestinos.

O projeto enfrentará resistência no Parlamento, tanto à esquerda quanto à direita, porque há a sensação generalizada de que a emenda contraria valores contidos na Declaração de Independência de Israel:

“O Estado de Israel (…) assegurará a completa igualdade de direitos políticos e sociais a todos os seus habitantes, independentemente de sua religião, de sua raça e de seu gênero sexual; ele vai garantir a liberdade de religião, de consciência, de idioma, de educação e de cultura”.

Não há como garantir igualdade de direitos “independentemente da religião” se o candidato a cidadão israelense deve se dizer “leal” a Israel como Estado judeu – concluindo que esse juramento implica um envolvimento religioso que os não-judeus podem não ser capazes de oferecer.

É uma óbvia tentativa de ampliar a sensação de isolamento e segregação dos árabes israelenses, para criar um fato consumado e acelerar o que a extrema-direita israelense vê como única alternativa de “paz” com os palestinos: um Estado exclusivamente judaico.

Como disse o insuspeito Reuven Rivlin, presidente do Parlamento e integrante do Likud:

“Esta lei não vai nos ajudar como sociedade e como Estado. Pelo contrário, vai armar nossos inimigos e adversários no mundo em seu esforço para enfatizar a tendência ao separatismo e mesmo ao racismo em Israel”.

O pensamento de Rivlin mostra uma preocupação política imediata. No longo prazo, porém, o caso revela traição ao espírito cosmopolita judaico e reforça os riscos do isolamento crescente a que Israel parece se submeter diante da pressão internacional. Com uma iniciativa dessas, que se soma a declarações e posições desastrosas de Lieberman e seus pares anti-árabes, Israel aproxima-se justamente daqueles países que mais critica por misturarem Estado e religião.

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