O curioso legado do dunguismo

Marcos Guterman

03 Julho 2010 | 16h55

A eliminação precoce do Brasil na Copa deflagrou uma onda de “reflexão” sobre o legado do “dunguismo”, sistema de pensamento segundo o qual o resultado é mais importante do que os princípios – algo semelhante ao lulismo. Mas nenhuma discussão resume melhor esse legado do que a imagem que vi hoje ao vir para o Estadão. No caminho para o jornal há uma favela, e no bar de lá vi um morador com a camisa da Argentina. A cena era impensável desde os tempos da “Batalha de Buenos Aires”, em 1937, quando Brasil e Argentina se descobriram como inimigos mortais. Para lembrar: até aquele ano, brasileiros e argentinos disputavam jogos marcados pela cordialidade; mas o Sul-Americano de 1937 opôs as duas seleções na final, e o time do Brasil, imbuído de inédito furor cívico, queria vingar a violência e as provocações da Argentina, que incluíam xingar os brasileiros de “macaquitos”. A Argentina venceu, e cada jogo entre os dois países, dali em diante, se tornou oportunidade para vingança, sem falar do prazer de ver o maior inimigo ser derrotado até em campeonato de bocha.

O que então levou esse brasileiro típico a vestir a camisa do grande rival do Brasil? Tenho um palpite: a Argentina jogou nesta Copa um futebol muito bonito, que encantou mesmo os brasileiros. O time de Maradona foi eliminado, mas certamente seus torcedores – e seus improváveis admiradores – ficaram muito mais satisfeitos do que os torcedores brasileiros, que engoliram a violência dos “guerreiros” de Dunga em troca de uma vitória que afinal nem veio. Diante da pobreza burocrática atual do futebol brasileiro e da insistência argentina em jogar para o espetáculo, é provável que invejemos cada vez mais a Argentina – coisa que faria Ary Barroso, o locutor símbolo da “batalha de Buenos Aires”, rolar no túmulo.

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