O caso Strauss-Kahn e a vítima perfeita

Marcos Guterman

01 de julho de 2011 | 18h17

A camareira que acusa o ex-diretor-geral do FMI Dominique Strauss-Kahn de estupro mentiu em parte de seu depoimento à Justiça e tem possíveis ligações com tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Com isso, Strauss-Kahn foi liberado, porque o caso esmaeceu. Muita gente anda dizendo, porém, que a perda de credibilidade da acusadora não é suficiente para cravar que ela não foi estuprada de fato – e Strauss-Kahn só está livre, segundo essa visão, porque, afinal, ele é homem, branco e rico. Por outro lado, a camareira é mulher, negra e pobre. Logo, mesmo ante a fragilidade do processo, Strauss-Kahn só pode ser culpado.

Mas podemos inverter a equação: como a camareira é mulher, negra e pobre, e Strauss-Kahn é homem, branco e rico, é virtualmente impossível vê-lo como vítima, porque ele jamais será a parte fraca do caso – de acordo com a visão de que mulheres negras pobres serão sempre as vítimas e os homens brancos ricos serão sempre os algozes.

Strauss-Kahn foi tratado como culpado desde o primeiro minuto do episódio justamente porque não dava para presumir sua inocência ante uma vítima tão caracterizada como tal. Assim, destruir a vida de Strauss-Kahn pode ser visto como um ato de expiação de culpas coletivas seculares, por causa da escravidão negra e da marginalização de negros, pobres e mulheres na sociedade, mas nada teve a ver com Justiça de fato.

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