O caso Isabella e a sede de vingança

Marcos Guterman

27 de março de 2010 | 16h37

É muito provável que a justiça tenha sido feita no caso da menina Isabella. Havia evidências suficientes para condenar o pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, pelo cruel assassinato da filha de Nardoni. Há, contudo, aspectos perturbadores no que diz respeito à reação de parte da sociedade não só ao crime, mas ao processo e, sobretudo, a seu desfecho.

Os rojões que algum infeliz teve ideia de soltar quando saiu o veredicto ressoaram como uma terrível lembrança de patologias sociais latentes. Não se comemorava “justiça”, que todo cidadão deve prezar e desejar, mas sim “vingança”. Se não houvesse os muros do tribunal e a corrente de policiais entre a massa e os réus, certamente teria havido linchamento.

A agravante é que, estimulada pela mídia sensacionalista, essa massa parecia não distinguir realidade de ficção. Esperava-se o desfecho do caso como um dia de eliminação do Big Brother Brasil. Houve uma emissora de TV que, horas antes do veredicto, pôs no ar uma enquete para que o telespectador decidisse se o casal era “culpado” ou “inocente”. O linchamento, que poderia ser físico, se deu de modo virtual.

Uma sociedade que assim se comporta é cúmplice da violência que supostamente repudia. Mesmo sem antecedentes criminais, os réus foram mantidos presos durante dois anos, até seu julgamento, sob o argumento de que era necessária a “preservação da ordem pública” e também porque havia um “clamor público” causado pelo crime. Ou seja: a vingança parece ter começado antes do julgamento. É a confissão da falência do sistema.

Os desocupados que foram à porta do tribunal clamar pelo sangue do casal Nardoni tinham consigo o conforto moral que somente as massas fascistas possuem. Não havia entre eles nenhum traço de dúvida ou de contestação a respeito do caso, somente certezas. O prazer de assistir à condenação de dois assassinos de uma menininha conferiu a eles uma sensação de poder que em seu dia a dia lhes é sistematicamente negada. Depois de satisfazer sua sede de vingança, os desocupados se dispersaram e voltaram a seus afazeres medíocres. Sumidos no anonimato e em sua apatia bovina, eles continuarão sem reação ante as verdadeiras injustiças de seu cotidiano.

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