O caso do pastor demente, ou como o Ocidente virou refém do ‘islã radical’

Marcos Guterman

09 de setembro de 2010 | 01h46

Que tipo de muçulmano leva realmente a sério a diatribe imbecil de Terry Jones, o obscuro pastor evangélico americano que prometeu queimar dezenas de cópias do Alcorão, no próximo dia 11 de setembro, para lembrar o atentado contra o World Trade Center?

Essa pergunta parece pertinente, a julgar pela ânsia frenética de autoridades ocidentais para criticar Jones e tratar o episódio como “isolado”. Quando a própria secretária de Estado americana, Hillary Clinton, se abala a se pronunciar a respeito do caso, quando a chanceler (premiê) da Alemanha, Angela Merkel, se apressa a emprestar seu peso diplomático contra um insignificante religioso da Flórida, parece que a ofensa causada pelo ato de Jones é algo realmente transcendental.

O jornal Daily Star, do Líbano, deu o tom. Em editorial, informou que a queima dos exemplares do Alcorão será um evento capaz de “detonar uma onda de ódio que pode consumir partes do planeta” e “ameaçar as conquistas da civilização americana”, colocando o mundo “mais perto do precipício de uma guerra de civilizações do que jamais estivemos”. É um exagero típico da retórica antiamericana da maioria dos países árabes e muçulmanos, que voltou a ganhar força após a curta e cínica trégua gerada pela eleição de Barack Obama.

É óbvio que o pastor demente merece ser criticado, como reconhecem mesmo os islamófobos mais empedernidos dos EUA, como Sarah Palin, para quem a queima do Alcorão não se coaduna com os valores americanos e é uma “provocação desnecessária”. De fato, não é queimando o Alcorão que a mensagem contra o radicalismo islâmico será disseminada. Pelo contrário: só lhe dá força, ao fornecer “justificativa” para a histeria de muçulmanos que não enxergam o mundo senão como lugar do embate entre fiéis e infiéis. O problema, contudo, é o duplo padrão na abordagem do caso.

Sempre que radicais muçulmanos prometem destruir os EUA e se explodem para provar sua determinação, eles são retratados no Ocidente como uma minoria irrelevante dentro do chamado “mundo islâmico”. Por que então um pastor evangélico demente não recebe o mesmo tratamento por parte do chamado “mundo islâmico”? Por que é que multidões ao redor do “mundo islâmico” queimarão bandeiras americanas, gritarão “Morte à América” e jurarão vingança, como se o tal pastor representasse a essência do pensamento ocidental?

A resposta, incômoda, é que o chamado “mundo islâmico” instrumentaliza episódios como esse para reforçar a sensação generalizada de insegurança sobre como lidar com o islã, criando um vácuo em que o constrangimento ocidental se torna arma política. Qualquer crítica que diga respeito à violência promovida por muçulmanos, mesmo vinda de vozes moderadas, é imediatamente qualificada de “islamofobia” ou de “blasfêmia” – ao ponto de o lobby islâmico na ONU ter conseguido aprovar resolução que, na prática, estabelece censura a críticas religiosas.

Se o ridículo episódio do pastor americano serve para alguma coisa, é para mostrar que o Ocidente parece cada vez mais envergonhado de defender suas conquistas mais caras, como a liberdade de opinião, ante a campanha insidiosa de seus inimigos ideológicos mais atuantes.

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