O Brasil na companhia de delinquentes

Marcos Guterman

17 de junho de 2010 | 00h07

A diplomacia brasileira continua a produzir decisões contrárias à sua tradição, graças ao alinhamento ideológico antiamericano que atualmente parece dominar o Itamaraty. Depois de praticamente se isolar no Conselho de Segurança da ONU na votação das sanções contra o Irã, o Brasil decidiu não subscrever uma declaração do Conselho de Direitos Humanos da ONU contra as violações cometidas por Teerã.

O documento, assinado por 56 países, expressa forte preocupação com a situação dos direitos humanos no Irã, em particular depois das eleições presidenciais, “inclusive a violenta supressão da dissidência, a detenção e a execução sem o devido processo legal e a grave discriminação contra as mulheres e as minorias, além das restrições à liberdade de expressão e de religião”. Embora não inclua nenhuma condenação prática, a declaração ao menos serviu para alterar o padrão do Conselho de Direitos Humanos, habituado a ignorar as atrocidades cometidas pelo Irã e seus símiles.

A diplomacia brasileira, no entanto, preferiu alinhar-se a países como Cuba, Coreia do Norte, Sudão e o próprio Irã, além da Organização da Conferência Islâmica, para os quais é “injusto” tratar o Irã como um “caso especial”. Não há registro, porém, de que o Itamaraty tenha reclamado do Conselho de Direitos Humanos por tratar Israel como tema onipresente em sua agenda, graças justamente à articulação desses mesmos países aos quais o Brasil se associou. Até o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon já criticou esse comportamento da entidade.

Mas, de novo, a diplomacia brasileira parece apostar na ideia de que pode se afirmar à custa dos EUA – país que articulou a declaração crítica ao Irã. O problema principal, no que diz respeito aos cidadãos brasileiros que prezam a democracia, é que essa estratégia coloca o Brasil na companhia de delinqüentes, cujo objetivo é destruir as liberdades individuais para a consolidação de regimes de inspiração totalitária.

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