O apelo de Obama aos muçulmanos: engajem-se

Marcos Guterman

04 de junho de 2009 | 12h48

Houve, como se esperava, reações variadas ao discurso do presidente dos EUA, Barack Obama, ao “mundo islâmico”. Entre os palestinos, a respeito dos quais Obama reconheceu o direito a um Estado, tanto Hamas quanto Fatah consideraram o pronunciamento positivo. Mas o grupo fundamentalista que controla Gaza acrescentou que faltaram determinações concretas no palavrório do americano, apesar de ter incluído uma inequívoca reprimenda ao avanço colonialista israelense sobre o território palestino.

Do lado do “eixo xiita”, o Hizbollah foi blasé e informou que não acompanhou o discurso. Mas o Irã, país que, na opinião de Obama, tem o direito de desenvolver energia nuclear para fins pacíficos, viu um “passo inicial” no discurso. O balé diplomático entre os dois países tende a ficar muito interessante daqui em diante.

Já em meio à audiência na Universidade do Cairo, onde Obama falou e se desculpou pelas atrocidades cometidas pelo seu antecessor, a reação foi bastante calorosa. Mas isso não significa que todas as diferenças entre EUA e o “mundo islâmico” estejam superadas. A questão, primeiro, é deixar claro que não existe um “mundo islâmico”, mas vários, com divergências profundas entre si, maiores até do que as hostilidades em relação ao Ocidente.

Obama certamente se dirigiu à parte do “mundo islâmico” que encontra alguma disposição para se relacionar com os americanos, e isso inclui até mesmo o Irã e o Hamas, cuja liderança parece agora consciente de que a nova administração americana tende a esvaziar o discurso antiamericano no Oriente Médio, desmontando o tripé sobre o qual se assenta sua retórica política. Uma pesquisa que mostra o avanço do apreço dos egípcios pelos EUA, a partir da posse de Obama, é prova eloqüente disso.

Parece que a expectativa de Obama é que esse “mundo islâmico” faça neste momento uma aliança de conveniência com o Ocidente contra os extremistas – leia-se Taleban e Al Qaeda, que são, em essência, as prioridades absolutas de Washington. A reação virulenta de Bin Laden à presença de Obama no Egito reafirma isso de modo categórico. Ou seja: não é apenas Obama que precisa traduzir suas palavras em ações. O presidente americano, que tem “Hussein” no sobrenome, espera que o “mundo islâmico” mostre também se de fato está disposto a denunciar e isolar os radicais, iniciando uma nova era de cooperação e ajudando a superar o “choque de civilizações”.

Para quem não viu, o belo discurso de Obama está aí embaixo:

[kml_flashembed movie=”http://www.youtube.com/v/6BlqLwCKkeY” width=”425″ height=”344″ wmode=”transparent” /]

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.