O “antissionismo” e a picaretagem acadêmica

Marcos Guterman

03 de maio de 2012 | 10h00

O comentarista americano de esquerda Glenn Greenwald noticia em seu blog na Salon que um professor da UCLA (Universidade da Califórnia – Los Angeles), David Shorter, foi “formalmente punido pelo crime de ter incluído no site de seu curso um link para um manifesto político contra Israel que alguns estudantes não gostaram”.

O curso em questão é de “Visões Tribais de Mundo”, cujo objetivo é mostrar “a visão de mundo dos povos nativos expressa por meio de linguagem, mitologia, ritual, práticas de saúde e ecologia”. Na lista de material didático, Shorter sugeriu um site que prega o boicote acadêmico a Israel, movimento do qual o professor é signatário. Shorter reconheceu que é difícil ver qualquer ligação entre o boicote a Israel e um curso sobre povos nativos, mas disse que faz sentido porque os palestinos são reconhecidos como “povo nativo”.

Um grupo na UCLA protestou, alegando que defender o boicote a Israel nada tinha a ver com o curso em questão, o que parece óbvio. No entanto, Greenwald considera que a tal “censura” é apenas mais um entre tantos exemplos de como críticos de Israel sempre são constrangidos de alguma maneira na academia americana, como uma espécie de padrão de atentado ao intelecto quando se trata de Israel, numa “evidente ameaça à liberdade acadêmica”. Ele escreve: “De todos os lugares, a academia deveria ser o lugar que permite e encoraja o desafio às nossas crenças e presunções”.

Ora, se Greenwald está tão preocupado com a liberdade acadêmica, por que não critica o próprio boicote aos acadêmicos de Israel, uma óbvia violência anti-intelectual? Será que, em sua opinião, não há problema em boicotar intelectuais, desde que sejam israelenses? Será que a visão dos intelectuais israelenses não é válida, por princípio, para integrar o debate acadêmico que Greenwald tão apaixonadamente defende?

Greenwald diz ainda que o alarde todo é contra um “simples link” em um website de universidade. Isso é falso. O “simples link” é na verdade um manifesto político travestido de “material didático”, o que constitui óbvia desonestidade intelectual, que nada tem de inocente. No limite, ninguém pode ser punido por ser intelectualmente desonesto, mas, por outro lado, como devem se comportar os alunos de um professor-militante? Devem repetir em sala de aula que Israel é o câncer do Oriente Médio somente para tirar boas notas? Serão punidos se não o fizerem? O que Greenwald diria se um professor americano fosse militante da direita israelense e, em seu material “didático”, sugerisse a leitura, digamos, de um site francamente antipalestino, como o de Daniel Pipes?

O mais assustador não é que professores picaretas contrabandeiem militância anti-israelense barata para dentro da sala de aula. O mais assustador é que gente inteligente de esquerda, como Greenwald, vem comprando esse discurso, envernizando-o como se fosse legítima “liberdade acadêmica” e aceitando que alguns “intelectuais” possam livremente defender que outros intelectuais sejam impedidos de expressar suas ideias, pelo “crime” de serem israelenses.

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