O “Anjo de Hamburgo”

Marcos Guterman

04 de março de 2011 | 00h32

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa estava no meio do inferno e conseguiu enganar o Diabo.

Em 1936, Aracy trabalhava no Consulado do Brasil em Hamburgo e obteve vistos para que dezenas de judeus fugissem da Alemanha, onde estavam sendo reduzidos à condição de animais pelo regime nazista. Naquela época, já vigoravam no país as Leis de Nuremberg, feitas exclusivamente para segregar os judeus, primeiro passo concreto do governo de Hitler para a solução final da “questão judaica”.

A expulsão dos judeus alemães era um dos maiores objetivos do nazismo assim que chegou ao poder, mas o entrave a esse “projeto” era que não havia muitos países dispostos a aceitar esses refugiados. Isso ficaria claro dois anos depois, na Conferência de Evian, em 1938, em que o tema foi discutido, sem sucesso. Presente à conferência, Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, declarou: “O mundo parece dividido em duas partes: uma em que os judeus não podem viver e outra em que os judeus não podem entrar”.

O Brasil, então sob governo de Getúlio Vargas, era um dos países que estavam dificultando a entrada de judeus. Aracy poderia ter agido como a maioria dos funcionários dos governos ao redor do mundo e fingido que não tinha nada a ver com o sofrimento dos judeus, por mais que pudesse lamentar a situação. Mas ela resolveu que não ficaria indiferente e correu inúmeros riscos para salvar a vida de pessoas que ela não conhecia.

O motivo? “Por que era o justo.”

Aracy morreu nesta quinta-feira, aos 102 anos.

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