O acordo Israel-Hamas: só um negócio de ocasião

Marcos Guterman

18 de outubro de 2011 | 00h16

É improvável que os militantes mais apaixonados da causa palestina se emocionem com o fato de que vários dos palestinos libertados por Israel, na troca pelo sargento Gilad Shalit, tenham sido responsáveis por crimes bárbaros, como os atentados a uma pizzaria em Jerusalém (15 civis mortos), a uma discoteca em Tel Aviv (21 civis mortos) e a um hotel em Netanya (29 civis mortos). É improvável também que esses “humanistas” demonstrem qualquer espanto pela recepção de heróis que os notórios terroristas receberão em Gaza. Para essa turma de iluminados, quem mata mulheres e crianças em pizzarias é legítimo “combatente” pela “resistência” contra Israel.

Mas a vida como ela é não tem nada a ver com a vida como ela deveria ser. E a vida como ela é está no seguinte pé: Israel parece não se incomodar em complicar a vida do presidente palestino, Mahmoud Abbas, por causa da iniciativa de levar a petição do Estado palestino para a ONU, a despeito dos apelos feitos por israelenses e americanos. Para isso, nada mais eficiente do que se aproximar do Hamas, arqui-inimigo de Abbas, dando-lhe uma forcinha política. “Dividir para governar” continua sendo o lema de Israel para tratar com a liderança palestina.

Além disso, ao flexibilizar sua posição, Israel tenta recuperar o terreno diplomático perdido, sobretudo com Egito e Turquia. De quebra, o governo israelense obteve de volta seu soldado, causando impressão profundamente positiva em boa parte da sociedade israelense – embora outra boa parte encare o acordo como uma concessão excessiva ao Hamas, mandando a perigosa mensagem de que o terrorismo compensa.

Ao Hamas também interessava negociar com Israel, porque sua popularidade anda baixa em Gaza. Ademais, o grupo está cada vez mais desconfortável com a situação na Síria, um de seus principais financiadores. É provável que o Hamas comece a se aproximar mais efetivamente do Egito, agora sem Mubarak, visto como fantoche de Israel. Não é à toa que a mediação da troca de prisioneiros tenha sido feita com significativa participação egípcia.

Com tudo isso, porém, estamos longe de dizer que esse tipo de acordo significa um sinal de possível estabilidade no Oriente Médio, ou mesmo de uma nova configuração geopolítica. Noves fora o mise-en-scène, Israel e Hamas fizeram apenas um negócio de ocasião.

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