No Brasil, palanque está virando púlpito

Marcos Guterman

16 de fevereiro de 2012 | 22h18

Políticos que se dizem religiosos continuam em franca campanha para pautar a agenda eleitoral brasileira, transformando questões importantes como o aborto e a homofobia em um rasteiro Fla-Flu moral. Desde o desastroso “debate” sobre o aborto na campanha presidencial que elegeu Dilma Rousseff, ficou claro que aos fundamentalistas não interessa tratar esses temas no terreno da saúde pública ou da cidadania, e sim em termos bíblicos.

Embora o país seja constitucionalmente laico, o governo de Dilma, pressionado por parlamentares cristãos, curvou-se e reafirmou, recentemente, que nem discutirá uma eventual descriminalização do aborto – embora esta seja uma das principais questões para as mulheres brasileiras. É o caso de perguntar, nessas circunstâncias, para que serve a Secretaria de Políticas para as Mulheres.

Outro alvo é o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. Novato em política, assim como Dilma, Haddad já experimenta a fúria dos fanáticos, que querem colar nele o rótulo de amigo da perversão homossexual. Quando ele era ministro da Educação, o governo encomendou uma série de filmes para orientar crianças e adolescentes sobre o homossexualismo, com o objetivo de combater a homofobia. O material, preparado por ONGs militantes, tinha conteúdo bastante, digamos, problemático – um dos vídeos sugeria que, sendo bissexual, um garoto tem muito mais chances de encontrar alguém para namorar, o que pode soar como uma “vantagem”.

O material acabou sendo vetado por Dilma, menos por seu desastroso conteúdo e mais pela pressão da “base aliada” ligada aos religiosos. O probo Anthony Garotinho (PR-RJ), que está em paz com Deus e com sua consciência, chegou a pedir a demissão do ministro. Segundo essa turma, que apelidou os vídeos pejorativamente de “kit gay”, a campanha teria o poder de induzir alguém a se transformar em homossexual – como se ser homossexual fosse fruto de uma escolha deliberada. Se assim fosse, seria possível então produzir vídeos que induzissem homossexuais a se transformar em heterossexuais. Mas não adianta tentar trazer o debate para o campo do racional, porque estamos falando de religião.

Com a candidatura de Haddad, o tema voltou à pauta, com igual virulência. “Vai ser difícil tirar essa mancha do Haddad. Ele vai sofrer muito com isso”, disse Marcos Pereira, bispo da Igreja Universal e presidente nacional do PRB, partido da base de Dilma. E já tem gente tirando pedaço. O pré-candidato Gabriel Chalita (PMDB), que é católico, disse que o próximo prefeito de São Paulo tem de governar segundo “valores cristãos”, porque esse seria o desejo de “toda a sociedade” paulistana – uma pretensão no mínimo questionável.

O combate ao homossexualismo é apenas um dos eixos dessa cruzada essencialmente antidemocrática, que contamina o discurso político para convertê-lo em sermão, constrangendo governantes fracos e dividindo o eleitorado em justos e pecadores.

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