Neymar e o jornalismo esportivo: olé

Marcos Guterman

03 de dezembro de 2011 | 00h08

Neymar fechou nesta sexta-feira seu nono contrato de publicidade. O novo integrante do “pool” que engorda a conta corrente do menino de ouro do futebol brasileiro é a Claro. Na lista, ainda não apareceu o nome do Banco do Brasil – e essa ausência tem muito mais a ver com mau jornalismo do que com futebol.

Quando Neymar anunciou que ficaria no Santos, contrariando especulações que davam como certa sua ida para o Real Madrid, circulou a informação de que a decisão do craque só foi possível porque o Banco do Brasil bancaria seus astronômicos vencimentos – falava-se em algo em torno de R$ 3 milhões mensais. Isso significava a entrada de dinheiro público para manter no Brasil um jogador de futebol, patrimônio de uma entidade privada.

Na ocasião, o jornal “Marca”, da Espanha, chegou a dizer que o desfecho só foi possível por intervenção direta da presidente Dilma Rousseff, preocupada em manter no país “o símbolo da seleção, a imagem da próxima Copa e o principal anúncio publicitário do país sul-americano”. Escreveu o “Marca”:

“El Santos no estaba en condiciones económicas de igualar el sueldo que el Madrid ofrecía a Neymar, pero Dilma Rousseff ha hecho de intermediario entre el club paulista y el Banco do Brasil para que el presidente del Santos obtuviera un crédito de casi 40 millones de euros. Así las cosas, Neymar percibirá 7,2 millones de euros al año. Un 15% menos de lo que le ofrecía el Real Madrid, pero una cifra neta casi idéntica tras los impuestos brasileños, donde la tasa a pagar es del 27,5%”.

O “Marca” sabe como essas coisas funcionam. Afinal, é o porta-voz do Real Madrid, time que se tornou potência global graças às relações de Santiago Bernabeu, seu presidente de 1943 a 1978, com o governo fascista espanhol. Mas gente séria aqui no Brasil, como o colunista de Veja Ricardo Setti, também expressou profunda indignação com a informação:

“Banco do Brasil. Eta beleza! Além dos incontáveis bilhões de reais do suado dinheiro público que o governo vai enterrar em estádios e vai investir em outras obras necessárias à Copa do Mundo de 2014, agora a nossa principal instituição pública de crédito decide colocar seu rico dinheiro nesse novo empreendimento patriótico — manter no Brasil nosso principal jogador de futebol. O Banco do Brasil, mais uma vez, salva a pátria. Acho que é essa frase que os dirigentes do banco oficial vão querer ouvir. E quem liga para dinheiro público, ‘neste país’ — além de nós, contribuintes?”.

O Banco do Brasil até queria associar-se a Neymar, mas perdeu a briga para – ironicamente – um banco espanhol, o Santander. E por que tanta gente quer se ligar ao jogador do Santos? Porque ele é ouro em pó. Sua imagem é capaz de alavancar qualquer marca, para um público que transcende idades e preferências clubísticas. Neymar é um fenômeno publicitário. O pessoal do Banco do Brasil, que não rasga dinheiro, sabe disso e foi atrás do craque, não para apadrinhá-lo a pedido da presidente Dilma, como se fosse um favor “patriótico”, e sim para lucrar com a imagem dele. Qualquer estudante de marketing sabe como isso funciona.

Já alguns jornalistas, mais uma vez, se precipitaram em suas considerações acerca de Neymar, inconformados com o fato de que o maior jogador brasileiro desde Ronaldo, assediado pelos clubes mais ricos do mundo, simplesmente não quis sair do Brasil. Eles não conseguiram entender que o garoto gosta do time brasileiro em que joga, que está ficando milionário sem precisar falar espanhol ou inglês e que o Santos acha que pode lucrar mais se não se desfizer de seu maior patrimônio. Tudo isso contraria conceitos arraigados demais no jornalismo esportivo, e não somente no Brasil, quando se trata do inebriante poder de sedução do dinheiro europeu sobre jogadores famintos de fama e fortuna.

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