Netanyahu e o charme de um discurso vazio

Marcos Guterman

24 de maio de 2011 | 23h38

Binyamin Netanyahu foi ovacionado 29 vezes em seu discurso no Congresso americano, contra 25 de Barack Obama em seu Discurso sobre o Estado da União deste ano. A chave do sucesso do premiê de Israel foi sua capacidade de dizer o que os parlamentares queriam ouvir – elogios pelo seu compromisso com a democracia e críticas ferozes aos inimigos comuns, como o Irã e o terror.

Por outro lado, Netanyahu mostrou claramente que nada tem a oferecer, exceto a velha imposição de condições incontornáveis. Embora tenha dito que os palestinos têm direito a viver em seu próprio Estado e que os palestinos de outras partes do mundo têm o direito de migrar para esse Estado – frases que ninguém imaginava pudessem sair de sua boca algum dia –, Netanyahu é prisioneiro de uma coalizão de governo cada vez mais hostil a concessões reais aos palestinos.

Seu discurso é claro: Israel não se considera ocupante, mas soberano na Cisjordânia, e os palestinos de lá não têm direitos sob a lei israelense. É uma situação obviamente intolerável. Provavelmente a questão palestina será o elemento central de uma pressão eleitoral sobre Netanyahu – a oposição, encabeçada por Tzipi Livni, parece ter percebido a oportunidade e aplaudiu a proposta de Obama para solucionar a questão palestina. Há quem diga que era isso justamente o que Obama desejava quando falou de um Estado palestino em condições que ele sabia que seriam rejeitadas por Netanyahu.

Já aos palestinos parece, por enquanto, ter restado a declaração unilateral na ONU para o reconhecimento de seu Estado, coisa que Obama já disse que não apoia. Um Estado palestino reconhecido pela Assembleia Geral sem passar pelo Conselho de Segurança (onde os EUA têm poder de veto) seria apenas um gesto simbólico. Mas esse evento tem o potencial de deflagrar uma onda de mobilização e violência contra Israel, criando ambiente de descontrole político no qual tudo pode acontecer. Não parece ser algo interessante para os palestinos no momento em que sua economia avança e a estrutura de um Estado viável está em plena construção.

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