Na Líbia, o objetivo é tudo

Marcos Guterman

22 de março de 2011 | 08h49

A robusta operação militar ocidental e árabe na Líbia deflagrada no sábado passado parece estar próxima de atingir um dos objetivos previstos na resolução da ONU que a autorizou, isto é, estabelecer uma “zona de exclusão aérea” no país. A ideia é impedir que o ditador líbio, Muamar Kadafi, possa usar sua aviação para atacar “civis”. A questão, porém, é saber se isso é o bastante, o que nos leva à pergunta crucial: qual é o objetivo final da operação?

Se o objetivo final é “proteger os civis”, só a zona de exclusão aérea não basta. Kadafi está massacrando civis em terra mesmo. Logo, pode-se supor que a “zona de exclusão aérea” possa servir para dar cobertura a um avanço rebelde contra as forças de Kadafi – ou seja, trata-se de uma interferência direta na guerra civil, e não numa maneira de “proteger civis”.

A esta altura, porém, é difícil saber quem são os “civis” que devem ser protegidos. Fica a sensação de que “civil”, na definição dos líderes da operação militar multinacional, é aquele que está pegando em armas para depor Kadafi. Ademais, na hipótese de que os rebeldes também ataquem civis (se é que isso já não está acontecendo), a coalizão militar estrangeira também atuará para contê-los? Provavelmente não.

Se o objetivo, porém, é derrubar Kadafi, como já sugeriu o presidente dos EUA, Barack Obama, dois problemas surgem de imediato. Primeiro: a resolução da ONU autoriza essa intenção? De certa forma sim, porque usar “todos os meios necessários” para impedir que Kadafi massacre civis significa, em última análise, permitir tirá-lo do poder se os demais instrumentos fracassarem. Isso nos leva à segunda questão: tirar Kadafi do poder resolveria os problemas imediatos da Líbia e transformaria o país automaticamente numa democracia? A história mostra que não.

Um aspecto central dessa estratégia de “mudança de regime” é que democracias de verdade não surgem desse modo. Democracias são fruto de longas lutas internas. A interferência externa tende a distorcer o caráter dessas lutas e alimentar autocratas associados às potências estrangeiras que derrubaram o ditador anterior. O resultado é que, em vez de resolver a guerra civil, a interferência externa tende a criar condições para a próxima.

Por todos esses motivos, tem havido grande confusão sobre o comando da operação militar – os EUA não querem saber de outro Iraque, e a Otan não sabe dizer até onde está disposta a ir.