Muito além da “bolinha de papel”

Marcos Guterman

21 de outubro de 2010 | 18h38

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, foi alvo de uma ação agressiva de militantes do PT durante caminhada no Rio. Chegou a ser atacado – houve tumulto, e objetos foram atirados contra o tucano. Um deles – um rolo de adesivos, segundo uma testemunha – atingiu o candidato na cabeça, e ele foi levado a um hospital. Imagens de TV mostram que, bem antes disso, uma bolinha de papel também foi atirada contra Serra. Essas imagens estão sendo usadas pelo presidente Lula para desqualificar a reação do tucano à agressão que sofreu, reduzindo o caso todo a uma mera “bolinha de papel”, como se não fosse nada demais um candidato à Presidência ter sido violentamente acuado por militantes de um partido adversário.

A história da tal “bolinha de papel” tem o exclusivo objetivo de desviar a atenção do fato de que os militantes petistas se comportaram de modo criminoso. É espantoso que o presidente da República, de quem se esperava uma atitude de tranqüilidade e eqüidistância num momento como esse, agarre-se a uma versão manca dos fatos para, em última análise, absolver os agressores e jogar a responsabilidade sobre a vítima, avalizando a violência.

Na internet, dirigentes petistas e simpatizantes do partido assumiram a versão da “bolinha de papel” como autêntica e estão fazendo dela piadas de todo o tipo, para desmoralizar a reação de Serra. Nada disso surpreende. A verdade não é o forte de quem se move exclusivamente por ideologia – afinal, se os fatos não coincidem com as certezas morais, danem-se os fatos. Essa militância, portanto, não está interessada em “verdade”, mas em impor seus pontos de vista, contando com o expedito apoio de um chefe de Estado que age cada vez mais como líder partidário.

Sorte nossa que os brasileiros são mais bem-humorados do que essa turma faz crer. Já tem até joguinho na internet para acertar bola de papel em Serra.

(Via Claudia Ribeiro. Valeu, Clau!)

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