Moacyr Scliar e a essência do judaísmo

Marcos Guterman

27 de fevereiro de 2011 | 18h02

Os judeus brasileiros perderam seu maior literato. Moacyr Scliar não foi só um escritor: ele pensava a condição judaica à luz de sua arte. Para ele, judaísmo é a própria literatura – isto é, o judeu (ou seja, o expulso, o estrangeiro, o excepcional) escreve porque busca entender sua complexa condição existencial e sua relação controversa com o mundo. O humor amargo e a melancolia, típicos da literatura judaica, se explicam por isso. No caso de Scliar, acrescente-se seu humanismo e sua preocupação com os deserdados – como no brilhante “A Mulher que Escreveu a Bíblia”, a história de uma das mulheres de Salomão (a mais feia) que recebe a incumbência de relatar a história do mundo e dos judeus.

Pode-se dizer que Scliar foi o nosso Bashevis Singer, o autor polonês que, embora escrevesse em iídiche e abordasse o universo judaico dos shtetl de seu país, conseguia falar de toda a humanidade. A diferença é que Scliar era brasileiro, e com isso ele acrescentava uma bossa peculiar a seu texto, uma quase inocência – apenas na aparência, claro, porque a malícia é um dos traços mais interessantes do autor.

Sobretudo, Scliar entendeu que a tradição e o patrimônio cultural judaicos não se manifestam plenamente de outra forma que não seja pelo contraditório, o que gera, invariavelmente, situações de humor, por vezes tenso, mas sempre humor.

Scliar, assim, não insultava a inteligência; estimulava-a.

A propósito de seu judaísmo, Scliar escreveu:

“Diferente do que pensam os preconceituosos, o judaísmo está longe de ser uma coisa só, uma entidade monolítica (e conspiratória). A aproximação ao judaísmo varia amplamente: pode ser religiosa, pode ser tradicional, pode ser cultural. Nunca recusei minha condição judaica. Nascido e criado no Bom Fim, o bairro dos imigrantes judeus de Porto Alegre, desde muito cedo tive uma intensa vivência comunitária: ouvia falar iídiche, comia pratos da culinária judaica e, sobretudo, tive uma mãe judia daquelas de livro, superprotetora e alimentadora.
Mas isso não impediu que surgisse em mim a consciência da diferença e do estigma; a certa altura concluí que estava irremediavelmente condenado ao Inferno, onde queimaria por toda a eternidade. Muitos anos de vida (e muitos anos de análise) ajudaram a superar este e outros conflitos; hoje tenho orgulho do meu judaísmo.

Não sou religioso, mas a condição judaica vincula-me a uma rica cultura, exemplificada por nomes como os de Marx, Freud, Kafka, Benjamin, Bashevis Singer, Einstein e Chagall, que marcaram nosso mundo. E, conflitos à parte, o Estado de Israel é um exemplo de dinamismo e de progresso. Um provérbio em iídiche diz que ‘é duro ser judeu’. Verdade. Mas é gratificante também”.

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