Menos uma saia-justa para Lula

Marcos Guterman

05 de maio de 2009 | 01h41

O presidente Lula já teve de sair de fininho para não ter de dividir a mesma sala com um notório criminoso de guerra, o presidente do Sudão. O ímpeto diplomático do atual governo e seu desejo muitas vezes pueril de demonstrar importância geopolítica acabam por criar situações embaraçosas como essa. Ou como a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil – um erro de cálculo brutal de Brasília.

Ahmadinejad é um negacionista do Holocausto e um sujeito que não se incomoda de liderar a turma dos racistas que acham que Israel, Estado reconhecido pela ONU, deve deixar de existir. Era esse camarada que seria recebido por Lula em Brasília nesta quarta-feira. Seria, porque Ahmadinejad mandou avisar que não vem.

Os motivos são ainda obscuros – como é obscuro tudo o que vem do governo fundamentalista iraniano. No entanto, é lícito supor que Ahmadinejad tenha ficado incomodado com a postura brasileira de criticá-lo pelas barbaridades anti-semitas que pronunciou em reunião da ONU sobre o racismo. Ahmadinejad queria apoio total do Brasil em sua gestão anti-Ocidente e anti-Israel, preço que nem a desastrada diplomacia brasileira para o Oriente Médio poderia pagar.

Ainda assim, surpreende que Ahmadinejad tenha recuado. Sua visita ao Brasil só seria útil para ele, como forma de romper o crescente isolamento internacional.

Seja como for, o cano de Ahmadinejad foi uma sorte danada para o Brasil, ainda que talvez Lula não tenha se dado conta disso.