Memória permanente: uma ameaça

Marcos Guterman

28 Julho 2010 | 00h33

A internet é um lugar em que cada texto, cada foto, cada comentário publicado jamais será destruído. Ao mesmo tempo em que realiza o sonho da manutenção eterna da memória, a rede mundial representa, por essa mesma razão, a terrível perspectiva de que o indivíduo está para sempre exposto pública e permanentemente. Para Jeffrey Rosen, em artigo no New York Times, essa característica impede o indivíduo de se reinventar, de recomeçar, de “enterrar o passado”.

“Sabíamos há anos que a Web permite um voyerismo sem precedentes, um exibicionismo e uma indiscrição inadvertida, mas só agora começamos a entender os custos de uma era em que tantas coisas que dizemos e que os outros dizem sobre nós se tornam arquivos digitais – e públicos. O fato de que a internet parece nunca esquecer é ameaçador, num nível quase existencial, para nossa capacidade de controlar nossa identidade, para preservar a opção de nos reinventar e começar de novo, para superar nosso passado”, escreveu Rosen.

Para ele, a internet criou uma espécie de “crise de identidade coletiva”, global. “Conhecemos” boa parte das pessoas com quem nos relacionamos graças ao que está gravado nessa memória virtual permanente. Do mesmo modo, pessoas que não nos conhecem são capazes de emitir julgamentos definitivos a nosso respeito a partir de referências encontradas após uma pesquisa no Google.

Por fim, Rosen lembra o personagem “Funes, o Memorioso”, de Borges, que perde a capacidade de esquecer. Sua memória prodigiosa, no entanto, é um fardo, porque a quantidade de dados armazenados é tão grande que ele não é mais capaz de converter informação em conhecimento. Com a imensidão da internet, diz Rosen, corremos o risco de perder a capacidade de aprender com nossos erros.

Mais conteúdo sobre:

Internet