Lula, Médici e a seleção brasileira

Marcos Guterman

29 de abril de 2010 | 01h03

Miguel Jorge e Ahmadinejad

Miguel Jorge e Ahmadinejad - Foto Marcello Casal Jr./ABr

 

Lula e Chávez - Foto Ed Ferreira/AE

Lula e Chávez - Foto Ed Ferreira/AE

 

Médici e a taça Jules Rimet

Médici e o caneco

 

Vai ser engraçado ver gente da esquerda, que criticou a ditadura pelo suposto uso da seleção brasileira para se legitimar, torcendo agora pelo escrete avalizado como estandarte diplomático do governo Lula. Pode-se argumentar que os objetivos de Lula são mais “nobres” – o que, de resto, é mera questão de opinião, já que presentear gente como Ahmadinejad e Chávez com a camisa da seleção não parece ser exatamente um gesto “nobre” (seus opositores presos, perseguidos e mortos que o digam). No entanto, se esse argumento é válido, então o problema não é a manipulação em si, mas sim quem manipula. Se é Médici quem ergue a taça, trata-se de uma ofensa; se é Lula quem dá a camisa canarinho a ditadores, é bacana.

Ao erguer a taça da Copa de 70, Médici seqüestrou uma conquista que não dependeu, em nenhum momento, da figura do presidente. O general arrogou-se o papel de “torcedor número um”, dando a entender que ele representava os “90 milhões em ação”, o que era um óbvio escárnio ante o fato de que, afinal, o país enfrentava uma feroz ditadura e, portanto, o que quer que Médici considerasse correto dificilmente seria contrariado. Do mesmo modo, ao presentear autocratas com a camisa da seleção brasileira, Lula seqüestra um dos símbolos mais fortes do Brasil e o usa para legitimar uma política externa que nem de longe é consenso no país.

Ambos os gestos deveriam ser condenados, mas, diante da arrogância messiânica gerada pela popularidade de Lula, é improvável que o atual presidente sinta-se constrangido por agir como Médici, que passou à história por tentar instrumentalizar a paixão nacional.

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