Lula e os urubus demagogos

Marcos Guterman

31 de outubro de 2011 | 14h26

Menos de 24 horas depois da divulgação do diagnóstico de câncer no ex-presidente Lula, apareceu no Facebook uma campanha intitulada “Lula, faça o tratamento pelo SUS”. Afinal, diz o texto, se o próprio Lula afirmou que o sistema público de saúde no Brasil é “quase perfeito”, uma parte da opinião pública nacional viu-se no direito de lhe cobrar que fosse se tratar como qualquer cidadão brasileiro, isto é, num hospital público – onde a espera pelo início do tratamento chega a três meses.

Mas Lula não é um “brasileiro comum”. Goste-se dele ou não, Lula ocupou a Presidência da República e foi a principal liderança do Brasil por oito anos, razão pela qual tem de ter alguns privilégios. A lei brasileira dá a ex-presidentes o auxílio de vários funcionários públicos, carro oficial e outras facilidades. É assim em qualquer parte do mundo civilizado. Nos EUA, por exemplo, até as despesas médicas dos ex-presidentes e de sua família estão cobertas, mesmo daqueles que eventualmente renunciem ao mandato.

Pode-se argumentar que o tratamento médico privado no Sírio-Libanês não consta da lista das prerrogativas constitucionais de ex-presidentes brasileiros. No entanto, se Lula tem dinheiro para pagar a conta e bons amigos para cuidar dele, sua decisão de optar por um hospital particular permanece legítima. Ele precisa cuidar de sua saúde da melhor maneira possível, e não se transformar num mártir para provar que o SUS é tão bom quanto ele dizia – afinal, todos já sabemos que isso não passou de mais uma de suas bravatas.

Há um bocado de ressentimento contra Lula, o que se traduz nessa campanha irônica nas redes sociais. Mas, no frigir dos ovos, querer que Lula se trate no SUS é tão demagógico quanto o discurso que transformou o petista no redentor dos pobres brasileiros.

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