Lula e o país “dele”

Marcos Guterman

18 de agosto de 2010 | 01h00

Como já se esperava, o programa gratuito de Dilma Rousseff na campanha presidencial usou de cara a “bomba atômica Lula”, na feliz expressão de José Roberto Toledo. A ideia óbvia é, como diz Toledo, tentar liquidar logo a fatura. Aqui, porém, interessa mais uma análise de como Lula apareceu na propaganda de Dilma. E o que se viu foi a reafirmação escancarada do patrimonialismo lulista.

Patrimonialismo, como se sabe, é a indistinção, para o governante, entre o que é público e o que é privado. Os reis absolutistas eram patrimonialistas. Lula também é, porque se vê como proprietário legítimo do Estado. Quando se trata de Brasil, o pronome “nosso” não existe para Lula. Apenas “meu”.

A certa altura da propaganda eleitoral no rádio, Lula pede o voto em Dilma e afirma: “É nela que eu confio pra cuidar do meu país”. Ou seja: o Brasil é o país que pertence a Lula – aquele que faz política externa com “companheiros” ditadores, ao arrepio das tradições diplomáticas brasileiras; aquele que mandou dar à própria mulher a principal condecoração do Itamaraty; aquele que violou a lei eleitoral seguidas vezes para conseguir transformar uma ilustre desconhecida numa candidata viável; aquele que não perde a chance de criticar a fiscalização pública das obras de seu governo, vista como um entrave a seus projetos grandiosos de transformação do Brasil.

O país de Lula é, enfim, aquele em que o monarca não precisa se justificar ante outros Poderes nem respeitar qualquer forma de oposição, porque tem a legitimidade garantida por unção histórica – e cujo patrimônio será transmitido por herança para uma sucessora escolhida exclusivamente segundo sua soberana vontade. Isso não significa que Lula lhe entregará a coroa, longe disso. Em entrevista a rádios do Nordeste, segundo o registro de Josias de Souza, Lula referiu-se a Dilma como “minha presidenta” (e não presidente do Brasil) e disse: “Se tiver alguma coisa errada, vou pegar o telefone e ligar para minha presidenta”.

A responsabilidade de Dilma, portanto, será a de gerenciar o patrimônio de Lula. Como diz a música que “fala pelo presidente Lula” e que fechou o programa de TV da candidata petista:

“Deixo em tuas mãos o meu povo”.

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