Líbia: a coalizão está indo longe demais?

Marcos Guterman

28 de março de 2011 | 18h18

O chanceler da Rússia, Sergei Lavrov, disse nesta segunda-feira que a coalizão militar em ação na Líbia está interferindo na guerra civil do país, ao atacar as forças do ditador Muamar Kadafi, permitindo o avanço rebelde. Para Lavrov, isso “não é avalizado pela resolução do Conselho de Segurança da ONU” que autorizou a ofensiva. O texto da ONU, diz ele, tem como único propósito “garantir a proteção da população civil”.

Trata-se de uma leitura apressada da resolução. Em seu parágrafo 4, o texto aprovado (sem veto da Rússia) diz que estão autorizadas “todas as medidas necessárias (…) para proteger civis e áreas de população civil sob ameaça de ataque na Líbia”. Isso significa que a coalizão deve proteger os civis da “ameaça” de ataque, e não de ataques propriamente ditos, o que pressupõe uma ação preventiva contra a capacidade militar de Kadafi, que é precisamente o que está acontecendo.

Se o ataque às forças do ditador está facilitando a vida dos rebeldes, trata-se de um “efeito colateral” da resolução – que, obviamente, sempre esteve na cabeça dos estrategistas militares ocidentais. Afinal, EUA, Reino Unido e França já disseram que Kadafi deve deixar o poder, por bem ou por mal. Nem por isso, todavia, pode-se falar em violação dos termos da resolução.

Noves fora as tecnicalidades jurídicas, Moscou continua querendo faturar politicamente em cima da óbvia rejeição que causaria uma intervenção ocidental de fato na Líbia – não porque o governo russo tenha especial apreço pela vida de civis (os tchechenos que o digam), mas porque vê na situação mais uma oportunidade para exercitar o habitual populismo barato contra os ocidentais.