Kony e o alívio virtual de consciências

Marcos Guterman

13 de março de 2012 | 18h35

Mais de 70 milhões de cliques transformaram o vídeo acima, de uma ONG americana chamada “Invisible Children”, no mais visto da curta história da internet. É um fenômeno por pelo menos duas razões: tem meia hora de duração, e não alguns segundos, o que contraria o padrão dos virais da web; e supostamente colocou os conflitos em Uganda no mapa das preocupações das pessoas comuns ao redor do mundo. Para quem ainda não sabe (e parece que o mundo inteiro já sabe), o vídeo faz uma campanha para que Joseph Kony, um senhor da guerra ugandense, seja preso. Ele seqüestra crianças para usá-las como soldados. A ONG pede que os internautas dêem “RT”, ou seja, passem o vídeo adiante, e comprem o kit “StopKONY” por US$ 30 para ajudar a financiar a campanha. Na lógica da “Invisible Children”, quanto mais “RTs”, maior será a pressão para que os dirigentes façam alguma coisa. “O mundo não será mais o mesmo” depois disso, diz a ONG, sem nenhuma modéstia. O feito da campanha é inegável, mas talvez seja prudente moderar o entusiasmo.

Não é o caso nem de dar grande importância à constatação de que o vídeo tem problemas factuais importantes. O maior deles é que Kony já não é o poderoso “senhor da guerra” que era há dez anos – hoje ele está enfraquecido e acuado. O problema maior é a mensagem de que o Ocidente é o salvador dos pobres negros africanos trucidados em guerras entre si. É o “fardo do homem branco”, que esteve em voga no século 19 e inspirou as missões imperialistas europeias naquela ocasião. A imagem de um punhado de soldados americanos enviados como “conselheiros” para ajudar a capturar Kony é constrangedora.

Junte-se a isso a enorme simplificação do conflito – o autor do vídeo convida seu filho pequeno a decidir quem é “bom” e quem é “mau” – e então temos uma tocante história que pode até ajudar a mobilizar pessoas, mas não serve como informação.

Assim, o vídeo sobre Kony é revelador não das mazelas africanas, mas das mazelas da internet. Muito se fala sobre a “revolução” que a web está operando nas relações entre as pessoas, mas é precipitado dizer que a ampla conexão virtual tem tornado o mundo mais consciente, sobretudo por causa da baixa qualidade da informação que circula intensamente e é tomada como sendo a “verdade”.

Por ora, nada mudou efetivamente. O que temos, no caso de Kony, é a internet apenas a serviço do alívio virtual de consciências.

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