Kissinger: intervir na Síria pode piorar crise

Marcos Guterman

04 Junho 2012 | 23h02

Uma intervenção militar na Síria, a título de acabar com os massacres ora em curso, pode causar violência ainda maior. Essa opinião, expressa tantas vezes pelo governo brasileiro, é compartilhada pelo ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger.

Em artigo no Washington Post, Kissinger faz uma arqueologia das relações internacionais para mostrar que a diplomacia da Primavera Árabe substituiu o princípio da ordem internacional baseada na soberania dos Estados, em vigor desde o século 17, pelo princípio da intervenção humanitária. Ou seja: a “comunidade internacional” exige que o governo negocie uma transferência de poder pacífica, o que ele jamais fará sem a ameaça ou a perspectiva de intervenção armada. Segundo Kissinger, essa doutrina não leva em conta primariamente questões como o interesse nacional, que não se enquadram na perspectiva moral implícita na ação de inspiração humanitária. E isso cria um problemão para os EUA.

A razão é simples: se a questão central não é o interesse nacional, mas uma demanda moral, então os EUA teriam de apoiar todos os levantes em todas as partes do mundo – inclusive na Arábia Saudita, que é um de seus maiores aliados no Oriente Médio a despeito de ser uma tirania. Ademais, só intervir para derrubar um regime assassino não basta: uma ação desse tipo pressupõe responsabilizar-se por ajudar na reconstrução do país, o que implica custos e desgaste político e diplomático; lavar as mãos significa permitir que terroristas ocupem os espaços deixados pela queda do regime.

E então surgem as perguntas. Uma intervenção na Síria seria interessante, do ponto de vista americano, porque derrubaria um governo que apoia Irã, Hizbollah e Hamas, vistos como problemáticos em Washington; por outro lado, os EUA estão finalizando a desgastante aventura no Iraque e no Afeganistão e têm poucos motivos para querer um novo confronto no Oriente Médio. Mais importante: quem substituiria Bashar Assad? Quem são os rebeldes? Quais são as chances de financiar gente que, depois, se tornará um pesadelo para os EUA, como aconteceu com o Taleban no Afeganistão?

Kissinger recomenda que, antes de derrubar Assad, os EUA e as outras potências interessadas no que acontece na Síria costurem um acordo político amplo, que evite a guerra civil e que tenha amplo apoio internacional, inclusive do ponto de vista da segurança. O ex-secretário, no entanto, diz duvidar dessa possibilidade, dadas as atuais circunstâncias. E é sombrio sobre o horizonte sírio: “Ao reagir a uma tragédia humana, temos de ter cuidado para não permitir outra. Na ausência de um conceito estratégico claramente articulado, uma ordem mundial que borra fronteiras e mistura guerras civis e internacionais jamais pode relaxar”.