John Galliano e os gays fascistas

Marcos Guterman

02 de março de 2011 | 00h15

Já é de amplo conhecimento a notícia de que o estilista John Galliano foi afastado da Dior por causa de um desagradável incidente: ele foi filmado completamente bêbado dizendo “eu amo Hitler” e desejando que seus desafetos fossem jogados em câmaras de gás. Galliano, como se sabe, é homossexual, e isso torna seu caso mais interessante do que um simples piti deselegante no mundo fashion.

O amor de Galliano por Hitler é inexplicável se lembrarmos que a Alemanha nazista assassinou milhares de homossexuais e aplicou com rigor as políticas específicas para persegui-los ­– como o Parágrafo 175. Mas o problema não é tão simples.

Houve vários líderes homossexuais entre os nazistas. O mais notório foi Ernst Röhm, comandante da SA (Sturmabteilung, tropa de assalto), que defendia a tese segundo a qual a “hipermasculinidade” – isto é, a dispensa total do elemento feminino – era o valor político mais importante, já que, em sua visão, só os homossexuais masculinos têm coragem de aderir à violência extrema.

Além disso, a Juventude Hitlerista era conhecida na Alemanha como “Juventude Homossexual”, resultado óbvio da rigorosa separação sexual. A SS também era um forte reduto de gays – embora, publicamente, Himmler, o comandante dessa força de elite, fosse um zeloso cumpridor do Parágrafo 175. Como observou Susan Sontag em ensaio de 1975 no New York Review of Books, o uniforme negro justo da SS, suas botas de couro, sua violência despudorada e seu poder erótico tornaram a temida divisão uma “referência de aventura sexual” num Terceiro Reich “gay”. Não é à toa, argumenta ela, que a simbologia nazista freqüenta as fantasias sadomasoquistas até hoje.

Para o jornalista britânico Johann Hari, ele mesmo homossexual e militante de esquerda, parece haver uma atração dos homossexuais pelo fascismo: “A verdade é que os gays masculinos estão no coração de cada um dos mais importantes movimentos fascistas. Com exceção de Jean-Marie Le Pen, todos os líderes fascistas da Europa nos últimos 30 anos são gays”. Hari cita o exemplo de Pim Fortuyn, o fascista holandês assassinado em 2002. Certa vez, acusado de odiar os árabes, Fortuyn comentou: “Como eu posso odiar os árabes? Eu chupei um na noite passada”.

Nada disso significa, obviamente, que exista uma relação direta entre os gays e a tragédia do fascismo. Mas atitudes como a de John Galliano inspiram a incômoda pergunta de Johann Hari: “Será possível que alguns gays ainda tenham de aprender que os fascistas não irão trazer a Solução Fabulosa para os gays, mas sim a Solução Final para todos nós?”