Israel e seus esqueletos

Marcos Guterman

24 Maio 2010 | 23h27

O livro “The Unspoken Alliance: Israel’s Secret Relationship with Apartheid South Africa”, que será lançado nesta terça-feira, dedica-se a esmiuçar a relação entre israelenses e o regime segregacionista sul-africano. Trata-se de uma das grandes vergonhas da história de Israel, rivalizando com as quatro décadas de ocupação militar dos territórios palestinos. Segundo o jornal britânico The Guardian, o livro, porém, traz uma agravante ainda mais vexatória: Israel teria tentado vender armas nucleares ao governo sul-africano.

A obra foi escrita por Sasha Polakow-Suransky, cuja especialidade é História Moderna. Polakow-Suransky teve acesso a documentos de 1975 que, segundo a interpretação que o Guardian lhe atribui, indicam que o então ministro da Defesa de Israel, Shimon Peres, ofereceu ogivas nucleares a seu colega sul-africano, P. W. Botha.

Por meio de um porta-voz, Peres negou categoricamente a denúncia. Pik Botha, chanceler sul-africano que negociou a entrada do país no Tratado de Não-Proliferação Nuclear e depois integrou o governo de Mandela, disse que acha difícil acreditar na suposta informação do livro. “Duvido muito que essa oferta tenha sido feita. Acho que eu saberia.” Yossi Beilin, ex-ministro israelense de tendência esquerdista e que fez uma resenha positiva do livro, considera que o Guardian exagerou nas conclusões: “O próprio livro não diz isso explicitamente”.

É provável que o Guardian tenha mesmo exagerado, como já havia feito em outras ocasiões a respeito de Israel. E é mais provável ainda que o burburinho em torno desse assunto sirva de munição para que os antissemitas travestidos de antissionistas reiterem sua absurda defesa do “direito” do Irã de ter armas nucleares. Nada mais eloqüente a respeito do colapso moral da militância antiamericana, que consegue dar razão a ditadores e autocratas só porque estes se posicionam contra o “império”.

No entanto, toda afirmação a respeito das relações entre Israel e a África do Sul do apartheid estará de qualquer maneira contaminada pela ambigüidade que as caracterizou. Os israelenses argumentam que sempre foram contra o apartheid, mas acabaram impelidos à estranha aliança com Pretória por causa do isolamento de Israel depois da Guerra dos Seis Dias (1967). É o mesmo que justificar a estranha aliança entre a Alemanha nazista e a União Soviética às vésperas da Segunda Guerra – os isolados que se atraem por razões de conveniência momentânea, mesmo estando em posições ideológicas absolutamente antagônicas.

No caso de Israel e África do Sul, porém, a aproximação superou largamente a conveniência momentânea e mesmo eventuais divergências ideológicas. Os sul-africanos se tornaram o terceiro maior comprador de armas israelenses e houve intensa movimentação de especialistas nucleares de Israel na África do Sul, país que acabou fabricando seu próprio arsenal de destruição em massa. Suspeita-se que Israel tenha testado sua bomba atômica com ajuda sul-africana.

A segunda geração da liderança israelense, personificada em Peres e Yitzhak Rabin, queria transformar o país numa potência, mesmo ao custo de sua imensa reserva moral pós-Holocausto, porque Israel entendia que só assim sobreviveria. Os ecos desse desvio se fazem ouvir ainda hoje. Sob a aparência de uma democracia plena e de uma sociedade vibrante, o interesse nacional, que mal esconde a ausência de escrúpulos, se impõe de modo absoluto. Ou seja: Israel não é a potência excepcional que sua história e seu marketing sugerem. É uma potência igual a todas as outras, a começar pelos defeitos.