Israel e a guerra que não será vencida

Marcos Guterman

04 de janeiro de 2009 | 00h07

Israel, afinal, deflagrou a esperada invasão de Gaza por terra. Sua intenção declarada é liquidar a capacidade do Hamas de atacar Israel, negando que deseje “mudar o regime” no território palestino. Como até agora os objetivos israelenses não estão claros, e mesmo dentro do governo há evidentes divergências sobre estratégias e metas, fica difícil saber aonde Israel quer chegar.

No geral, porém, é lícito supor que Israel pretenda de fato, em primeiro lugar, garantir um mínimo de estabilidade e segurança para os moradores de cidades do sul do país constantemente atacadas pelo Hamas. É esse o leitmotiv central, e qualquer outra consideração que não o leve em conta será parcial e falaciosa.

A questão é se o objetivo declarado será alcançado. “Vitória”, tal como antigamente se entendiam os triunfos militares, parece ser uma possibilidade remota, ainda que Israel inflija danos consideráveis ao inimigo. Várias razões concorrem para isso: o adversário não se renderá nem tem pretensões fora da esfera da guerra; o apoio diplomático a Israel é limitado; e o Hamas fará o que for possível para que haja muitos civis entre os mortos pela ação de Israel, ajudando seu projeto de transformar a luta local em uma batalha por corações e mentes no mundo islâmico – que é o que anima o eixo Irã-Hezbollah-Hamas.

Ao Hamas, por seu lado, interessa profundamente uma luta cara a cara com Israel. Em entrevista antes da atual crise, um dos líderes palestinos em Gaza, Abu Bilal, declarou: “Nada podemos fazer para ferir os israelenses a não ser atirar foguetes e esperar que eles entrem em Gaza. Estamos rezando para que os tanques entrem e então possamos lhes mostrar umas coisas novas. Temos nos preparado para essa batalha, e todos os nossos combatentes estão esperando pela chance de matá-los”.

O Hamas nunca escondeu que seu principal objetivo, em relação a Israel, é conduzir a situação a um ponto sem retorno. Sua carta de fundação, de 1988, desconsidera qualquer esforço diplomático para a resolução da questão palestina, o que deveria esvaziar apelos ingênuos nesse sentido enquanto o Hamas representar os palestinos de Gaza. Diz o Artigo 13 do documento: “As iniciativas e as chamadas soluções pacíficas e conferências internacionais estão em contradição com o Movimento de Resistência Islâmica”. Mais claro, impossível.

A carta de fundação do Hamas vai ainda mais longe e defende a morte dos judeus e a destruição de Israel. No preâmbulo, o grupo diz que “Israel existirá e continuará a existir até que o islamismo o destrua, como destruiu outros antes dele”. No artigo 7º, o Hamas reproduz supostas palavras do Profeta: “O Dia do Juízo não virá até que os muçulmanos matem os judeus”.

Diante desse quadro, uma solução diplomática aparenta ser uma quimera, razão pela qual, na equação israelense, resta ao país usar a força para defender seus cidadãos da perene ameaça, declaradamente genocida, representada pelo Hamas.

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