Israel conseguiu enfurecer os EUA

Marcos Guterman

13 de março de 2010 | 01h38

O governo de Israel, cuja má vontade em relação ao processo de paz com os palestinos é cada dia mais evidente, conseguiu com seu comportamento irritar profundamente seu principal aliado, os EUA, conforme registra o Washington Post.

A gota d’água foi o anúncio da construção de mais casas em uma área de Jerusalém disputada com os palestinos, feito no momento da visita do vice-presidente americano, Joe Biden. A missão de Biden era justamente a de reaproximar o governo Obama de Israel. O vexame a que Biden foi submetido não passou despercebido na Casa Branca.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, telefonou ao premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, para lhe dizer, segundo seu porta-voz, que “não conseguiu entender como isso pôde acontecer”. Para os EUA, disse o porta-voz, o anúncio israelense foi “um sinal profundamente negativo sobre o modo como Israel encara a relação bilateral e contrário ao espírito da visita do vice-presidente”. Segundo Hillary, “essa ação minou a confiança no processo de paz e nos interesses americanos”.

Os problemas de relacionamento entre EUA e Israel se dão justamente nesse aspecto: confiança. Se Hillary sugeriu que o governo israelense comprometeu a confiança americana em seu parceiro fiel, o contrário é verdadeiro desde a posse de Obama como presidente. Israel tem a sensação de que Obama lhe cobra muito mais do que aos palestinos, principalmente na questão dos assentamentos. A generalização americana a respeito desses assentamentos, igualando as colônias ilegais aos bairros que servem de moradia para israelenses, é particularmente decepcionante para Israel.

A tendência é haver um abismo de confiança ainda maior, porque a estratégia americana para o Oriente Médio não inclui um ataque ao Irã, que Israel defende, e reforça a tese segundo a qual os interesses americanos estarão mais bem atendidos se Israel desocupar as terras palestinas. A essa abordagem desoladora, o governo de direita de Israel, que tem na ocupação um de seus pilares políticos, está respondendo com pirraça típica de criança contrariada.

Noves fora a indisposição israelense, o fato é que a diplomacia americana sob Obama entrou na aventura da crise no Oriente Médio com a certeza de que poderia cortar o nó somente com o carisma de seu presidente, sem ter um plano de contingência para o caso de isso não funcionar. Pior: em lugar de seduzir os atores do conflito, os EUA acabaram por ajudar a atrasar o relógio do processo de paz para o tempo em que palestinos e israelenses não podiam nem sequer respirar o mesmo ar. Exatamente como agora.

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