Irã acha que os americanos estão banguelas

Marcos Guterman

12 de outubro de 2011 | 21h52

Os americanos dizem ter descoberto um complô de iranianos para matar o embaixador da Arábia Saudita nos EUA, Adel al-Jubeir. Como os EUA nem sempre conseguem provar aquilo que dizem – basta lembrar o caso das infames “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein –, abundam especulações sobre o caso. A primeira pergunta óbvia, feita aqui no Estadão por Gustavo Chacra, é qual a razão de planejar um ataque nos EUA, e não em países mais vulneráveis, como Líbano ou Iraque. Outra questão diz respeito ao fato de que o Irã raramente age por conta própria, preferindo usar “associados” – como Hamas e Hizbollah – para fazer o trabalho sujo do terrorismo. Logo, é estranho que iranianos estejam pessoalmente envolvidos.

Mas a certeza com que falam do caso as autoridades americanas, aí incluído o próprio presidente Barack Obama, faz pensar que talvez a história toda seja verdadeira.

Supondo que o complô tenha realmente acontecido, é preciso tentar compreender suas razões – afinal, todo crime tem de ter um motivo. A ação iraniana pode ter sido motivada pela constante sabotagem de seu programa nuclear, o que incluiu o assassinato de quatro de seus cientistas, certamente levado a cabo por agentes a serviço dos EUA e de seus aliados. Pode ter sido motivada também pela repressão saudita contra a minoria xiita no Bahrein – é conveniente lembrar, ainda, que o governo da Arábia Saudita incitou os EUA a “cortar a cabeça da serpente”, isto é, do Irã, referindo-se à influência iraniana no Oriente Médio. Outra razão possível seria uma crescente percepção da Guarda Revolucionária, central no poder iraniano, de que o país está justamente perdendo terreno em áreas cruciais – na Síria e na Palestina.

De todo modo, o importante é que, uma vez entendido que se trata de um complô real, configura-se uma mudança drástica da atitude do Irã em relação aos EUA – sai o provocador distante e cauteloso e entra o desafiante que não tem medo dos caninos americanos. Após os expurgos de sua ala moderada desde o levante “verde” pró-democracia em 2009, o governo iraniano fortaleceu os radicais e adotou um discurso cada vez mais hostil aos EUA. Assim, o Irã ajuda o Taleban a infernizar a Otan, financia xiitas fundamentalistas que atacam os sunitas e os americanos no Iraque e se nega a negociar seu projeto nuclear, a despeito das sanções.

É um Irã muito mais agressivo do que o da Revolução dos Aiatolás em 1979 e absolutamente convencido de que os EUA, sob Obama, não terão disposição para enfrentá-lo numa guerra.

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